Retire a primeira pedra quem nunca se sentiu enciumado, ainda que tenha mantido o fato em segredo. Sutil ou avassalador, esse é um dos sentimentos mais contundentes do ser humano. Talvez por isso seja fonte de inspiração para escritores e compositores. O ciúme está no centro do inferno emocional de Bentinho, personagem esculpido por Machado de Assis no romance Dom Casmurro que passa os dias dominado por incertezas e fantasias sobre a possível traição da idolatrada Capitu. Em Otelo, de William Shakespeare, ele é o “monstro de olhos verdes” que leva ao assassinato de Desdêmona. Na música, também não faltam exemplos. “O ciúme foi cantado por Orlando Silva, Roberto Carlos e Caetano Veloso, entre tantos outros”, lembra Luiz Tatit, compositor e professor da Universidade de São Paulo (USP).
E, claro, não há novela que não leve um toque dessa pimenta nas relações.

Na vida real, o ciúme é um dos temas que aparecem com frequência nas conversas com amigos, nas sessões de terapia. É compreensível. Afinal, no dia-a-dia é difícil ignorá-lo. “É natural sentir ciúme. É como
sentir dor ou fome”, diz o especialista Ailton Amélio da Silva, da USP. Também é verdade que, no Carnaval, o monstro ataca com volúpia. Em sã consciência,
nessa época de barriguinhas lindas à mostra, quem deixaria o parceiro passar o feriado sozinho? No entanto, para desespero dos mais preocupados, além do Carnaval e das situações comuns que podem ser estopins de uma crise, como uma simples ida a um restaurante, surgem outras capazes de despertar o monstro. As imensas possibilidades de contato com outras pessoas abertas pelas relações virtuais estão entre elas.
Alan Rodrigues
Combustível da paixão: A produtora de eventos Juliana Pinheiro, 29 anos, e o diretor comercial Luis Cláudio Freitas, 38, colecionam histórias de ciúme. Ela admite. Ele nem tanto, embora já tenha apagado todos os telefones de homens do celular da namorada. Ambos já apareceram sem avisar um na casa do outro para conferir se havia mais alguém por lá. E nada! Em quatro anos, não houve traição, mas ela desconfia de todas as mulheres que se aproximam dele. “Homem mente muito”, afirma. O casal garante: se deixarem de sentir ciúme, estranharão. Na opinião deles, quem ama tem ciúme, sim.“Se você sabe administrar, faz bem. É bom saber que alguém se importa com a gente”, garante Luis.

Não é exagero dizer que as novas ferramentas de comunicação da internet estão para o ciúme como a gasolina está para apagar incêndio. O Orkut, por exemplo, é uma janela para o mundo que permite fazer contatos ou reencontrar antigos amores. Mas, para quem tem tendência ao ciúme, é mais uma trincheira de briga. Em geral, por causa de recados deixados nas páginas de visita. O correio eletrônico é outro cenário que atrai desconfiados decididos a escarafunchar as mensagens eletrônicas atrás de pistas de traição.

O sentimento também se infiltra nas baladas. Por trás do clima aparentemente descomprometido das festas, estão jovens que muitas vezes não se dão o direito de admitir o desconforto quando o parceiro acha nova companhia. O que a moçada tenta fazer é administrar a situação. Na verdade, na geração adepta do ficar (trocar carícias sem compromisso), o ciúme perdeu espaço. “O ficar transformou a relação com o ciúme, que se mantém mais escondido”, avalia o psicólogo Ailton.
Ricardo Giraldez      
Jeito moderno: O artista multimídia Dudu Tsuda, 25 anos, lida com o ciúme de uma forma diferente. “Quando fico com alguém na balada, é algo que se encerra ali, como tomar uma Coca-Cola. Minha namorada está começando a entender isso e já está menos enciuma-da. Quando sei que ela ficou com alguém, só sinto ciúme quando percebo algum interesse emocional”, conta      
   

Essas novas conformações associadas ao ciúme instigam os especialistas a aprofundar o conhecimento sobre esse sentimento. Sua gênese, pelo menos, já é conhecida. Para o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro Ciúme – o medo da perda, a crença de que ele é inseparável do amor, por exemplo, remonta à origem do termo. “O amor é acompanhado de outro sentimento, que é o de cuidado, de zelo para com a pessoa amada.

O ciúme é uma distorção deste
zelo. A palavra vem do latim
zelumem e do grego zelus. Esta confusão de significados leva muita gente, principalmente os latinos, a cultivar esse sentimento como prova de amor”, analisa.

Na verdade, o ciúme não tem nada a ver com o bem-estar alheio. “Ele é a expressão do medo da perda ou da exclusividade sobre o outro”, diz a psicóloga Noely Moraes, da PUC/SP. Mesmo assim, é instintivo. “Ele é o grande responsável pela escolha da monogamia em boa parte das sociedades”, explica o psicólogo carioca Jorge Nogueira, criador do portal www.ciumeonline.com.br.
Alan Rodrigues
À flor da pele: a cantora Elza Soares, que não revela a idade, está casada há quatro anos com o cantor Anderson Lugão, 28 anos. “Sou ciumenta pra chuchu! Meu CD Do coccix até o pescoço tem esse nome por causa da música Dor de cotovelo, de Caetano Veloso. Ciúme dói mesmo, da flor da pele ao pó do osso. Mas vejo como uma forma de preservar o que se tem. Recentemente, no aeroporto de São Paulo, umas sirigaitas começaram a se engraçar com o meu marido. Não botei a mão na cintura para não virar neguinha, mas fiquei na frente delas até saírem de mansinho. No dia em que o ciúme acabar, o amor termina”, diz.

Também não falta quem enxergue um lado positivo nesse sentimento. “Algumas pessoas reagem a ele com a vontade de ficar mais atraentes”, garante a psicóloga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre. E há quem o provoque deliberadamente. No entanto, isso é um perigo. “É uma neurose complementar: alguns casais brigam para depois fazer as pazes. O problema é precisar de doses cada vez maiores para dar o mesmo efeito, como um vício”, alerta a sexóloga Márcia Bittar, de São Paulo.

Excetuando-se esses casos mais raros, os especialistas vêem o ciúme como um sinal de desconforto que, se for eventual e passageiro, não preocupa. Mas o conceito se modifica à medida que a frequência e a intensidade aumentam. “Ele é tolerável até certo nível, mas fica doentio quando passa a ser o centro da relação”, diz a psicóloga Noely. Pior ainda quando surge constantemente envolto em fantasias. “O ciúme delirante é muito maléfico”, atesta Nogueira.

De fato, o ciúme que incomoda precisa da atenção de especialistas (faça teste para saber seu grau de ciúme à pág. 53). Infelizmente, ainda não se inventou uma pílula para controlar mais essa angústia, mas a ajuda de psicólogos e psiquiatras tem sido providencial. Em geral, a saída indicada por eles é a terapia. Um dos pontos centrais do tratamento é cuidar da auto-estima do ciumento, quase sempre abalada. Esse, aliás, é um dos aspectos mais valorizados nas sessões do grupo de auto-ajuda Mulheres que Amam Demais Anônimas. Em sessões semanais, elas compartilham suas experiências. Rosângela (nome fictício) encontrou no grupo o alento de que precisava. Antes, tentou suicídio três vezes, sempre por ciúme. “Agora estou em recuperação”, diz.
Diego Rousseaux      
Grupo de mulheres se reúne toda semana para controlar o ciúme      
   

Comportamentos como o de Rosângela exigem ainda mais cuidados. “Há casos em que o ciúme é a ponta aparente da depressão. Nessas circunstâncias, o tratamento pode associar terapia e antidepressivos”, explica o psiquiatra Giancarlo Spizirri, de São Paulo. Às vezes, também é preciso proteger o parceiro, que pode se tornar vítima de graves agressões físicas. De qualquer forma, procurar ajuda, seja nos sites especializados da internet, seja no grupo de auto-ajuda ou no terapeuta, é o primeiro passo para uma vida mais feliz, a dois ou sozinho.