09/02/2005 - 10:00
O americano Raymond Kurzweil nunca tinha aparecido na tevê até participar do I’ve got a secret (Eu tenho um segredo, em português), uma versão melhorada do Programa do Raul Gil apresentado nos EUA por Steve Allen, na década de 1960. Seu número era simples: ele tocaria piano e, no final, contaria um segredo. E foi assim, à queima-roupa, que disparou, logo após os aplausos: “Construí meu próprio computador.” Sem entender, Allen perguntou: “O que isso tem a ver com a música que você executou?” A resposta deixou a platéia boquiaberta: “Foi ele quem a compôs.”
Premiado e bem-sucedido com a venda de suas invenções, que vão do sintetizador ao OCD (um tipo de scanner), Kurzweil se tornou um dos cientistas mais respeitados na construção de andróides. É verdade que sua “Ramona” não saiu do papel, mas ele não perde o otimismo. Pode ser que a robô não nasça tão humana quanto ele gostaria, mas isso não o impede de profetizar que, em 2030, os robôs serão confundidos com gente de carne e osso. Sim! O visionário defende que essas engenhocas estarão cada vez mais humanas.
Sinais de que esta realidade está próxima não faltam. O mais recente é o lançamento do Robosapiens, pela chinesa Wow Wee. O boneco computadorizado imita movimentos humanos, dança, e realiza pequenas tarefas, todas controladas a distância por controle remoto. Da família de andróides, ele é o único a chegar às prateleiras das lojas, o que ajuda a explicar a febre consumista. Só no Natal passado, as lojas da Europa e dos EUA esgotaram seus estoques de robôs. O humanóide não chega a ser inteligente como a empregada Rosie, do desenho animado Os Jetsons. “Só que ele pode pegar uma meia do chão e levar
para o cesto de roupas sujas”, diz seu criador, o especialista em robótica
Mark Tilden. Para o começo, já vale, mas serão esses bibelôs da robótica
capazes de ser tão humanos quanto nós?
Para saber, o brasileiro Carlos Ferreira da Silva criou uma fórmula batizada de “fator Silva” para definir o índice de humanidade (IH) dos cérebros de lata. Ele varia de zero (que equivale à humanidade de uma ameba) a um (igual ao do mais humano dos seres). O cálculo considera quatro coeficientes: físico, intelectual, sentimental e espiritual. Cada um tem peso de 0,25 e, somados, representam as características inerentes aos Homo sapiens.
É preciso muito cuidado na hora de fazer a conta. Afinal, quem perdeu uma das pernas não deixa de ser humano. Tampouco um autômato ganha pontos só por falar a nossa língua. Para as características intelectuais, se avaliam desde poder de raciocínio até habilidade emocional, valorizando-se, principalmente, a cognição, a capacidade inata de aprender por tentativa e erro. O aspecto espiritual não se refere à religiosidade, mas à procura do bem-estar pela evolução da mente. Como nem tudo é perfeito, o fator Silva dos humanos varia entre 0,84 e 0,94. Portanto, para que um andróide desfilasse pelas avenidas a ponto de ser confundido com um humano, deveria ter um índice de, no máximo, 0,75 – lembrando que as máquinas não têm consciência. Por enquanto.
Realidade virtual – Em seu livro Humanos versus andróides, que deve ser lançado em junho nos EUA, no Reino Unido e no Japão, o engenheiro Carlos Alberto Silva traça um panorama da busca pela máquina com “vida própria”. Também retrata o fascínio em torno da disputa entre criador e criatura, que, não por acaso, ganhou proporções no cinema. É nas telas que se vêem os robôs mais “humanos”. O garoto David, de A.I. – inteligência artificial, de Steven Spielberg, é um dos mais perfeitos. Com um fator Silva de 0,69, ele só perde para Andrew, de o Homem bicentenário, de Chris Columbus, que evolui ao longo do filme até atingir 0,7239 aos 100 anos de idade. Interpretado por Robbin Williams, Andrew foi comprado por uma família americana para realizar serviços domésticos. Aos poucos, demonstra sentimentos, faz graça e piadas.
Dentre as criaturas idealizadas pelos cineastas, apenas o cachorro Teddy, mascote de David em Inteligência artificial, virou realidade com o lançamento, em 1999, de Aibo, o cão computadorizado da japonesa Sony.. Por que, afinal, os humanos não conseguem reproduzir em laboratório o que nos filmes é tão comum? O escritor de ficção científica Brian Aldiss arriscou uma explicação. Para ele, o que emperra as pesquisas é a estagnação da capacidade de aprendizado. Aldiss compara a antiga sabedoria humana a uma lâmpada de 40 watts que iluminava um cômodo sem nos permitir ver seus detalhes. Com a Renascença, esse brilho subiu para 60 watts. No século XX, saltou para 100 watts, revelando as nuances do mesmo cômodo. Em 2162, as crianças teriam capacidade de enxergar dez vezes mais.
Estagnação – Nos últimos 20 anos, período que coincide com o início dos investimentos de fabricantes como Honda e Sony, não se conseguiu criar materiais que simulem a textura da pele humana. E os programas que reproduzem a fala estão na Idade da Pedra. Compactar baterias, hoje gigantescas e pesadas, para alimentar circuitos minúsculos ainda está distante. Nesse ritmo, seria razoável prever que em 2030 o fator Silva de um autômato não chegue a 0,40.
Os especialistas afirmam que se os robôs fossem usados nas indústrias, como na de automóveis, os avanços seriam maiores. “O problema é que eles são encarados como brinquedos”, explica Ferreira da Silva, ele próprio um dos criadores de um andróide chamado Joana Prado. Mas isso nem pesa tanto. O importante é desvendar o mistério da fisiologia e do funcionamento do corpo humano. Há campos do conhecimento pouco desbravados. O mais poderoso supercomputador do mundo processa mais de 100 trilhões de operações por segundo. Alguns cientistas dizem que ele se aproxima da capacidade do cérebro humano. “Só que essa máquina não dá conta de pensar como a gente”, pondera Ferreira da Silva. “Entender o cérebro completamente seria um passo decisivo na busca da inteligência artificial.” Pode ser que até lá os andróides sejam capazes não apenas de pensar, mas de se apaixonar. E é este fascínio que leva os seres humanos a se recriar em laboratório a cada dia.