11/01/2006 - 10:00
Os substantivos “shalom” e “Sharon” sempre foram considerados antagônicos. O primeiro significa “paz” em hebraico. O segundo é o sobrenome de Ariel, o primeiro-ministro de Israel, um general durão forjado nos campos de batalha e que participou de todos os conflitos armados do país desde a Guerra da Independência, em 1948. Na noite de quarta-feira 4, quando esse velho líder israelense sofreu, aos 77 anos, aquilo que os médicos qualificaram de “um significativo derrame cerebral”, o mundo teve uma lição do óbvio: a de que a paz depende do guerreiro. Sharon foi submetido a duas cirurgias no Hospital Hadassah, em Jerusalém – sendo a primeira de nove horas, seguida de coma induzido – para tentar conter hemorragias cerebrais. A equipe médica que o atende considera que o premiê não conseguirá reassumir seu cargo, mesmo que sobreviva. De todo modo, em termos políticos, Ariel Sharon está morto. Resta saber se a paz na região também entrou em estado terminal.
O estado de coma induzido se estende às negociações de paz com o governo palestino e também à própria política de Israel. De Sharon dependem – ou dependiam – as duas equações. Os israelenses têm eleições marcadas para 28 de março e o partido centrista formado pelo primeiro-ministro há três meses, o Kadima (Avante), tinha 39% das preferências dos eleitores para as 120 cadeiras do Knesset (Parlamento). O Likud, agremiação de direita de onde saíram Sharon e uma boa fatia de seguidores, contava com meros 14% nas pesquisas. Os trabalhistas, de centro-esquerda e que também perderam filiados para o Kadima, mantinham margem de 21% das expectativas de votos. “O problema é que o Kadima é partido de um só homem: Ariel Sharon. Ele é quem tem o cacife político para levar o partido ao poder. E não há herdeiros ou uma plataforma política que tenha sido manifestada pelo patriarca”, diz o professor Yaron Ezrahi, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Do ponto de vista institucional, Israel é uma democracia estabelecida e, como tal, não apresenta problemas formais de passagem de poder. O lugar de Sharon foi assumido provisoriamente pelo vice-premiê Ehud Olmert.
Assim como o Kadima perde seu líder, também o processo de paz fica sem rumo. Sharon, um velho falcão de guerra da direita, saiu de seu ninho e foi se acomodar no centro do espectro ideológico. Este vôo foi motivado e serviu para nortear as negociações com os palestinos. Antes de ser eleito primeiro-ministro, em 2001, Sharon era considerado um dos pais fundadores das colônias judaicas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. As ocupações de territórios palestinos foram incentivadas por ele e os colonos compuseram seu curral eleitoral por vários anos. Até que em meados do ano passado ele colocou as tropas israelenses para efetuar uma retirada unilateral de Gaza. E demonstrava intenções claras de repetir a manobra – em menor escala – na Cisjordânia. O velho guerreiro passou a ser o vilão dos conservadores e colonos. Mas a maioria do país o apoiava.
Metamorfose – A mudança de rumo nunca foi bem explicada pelo líder. O mais provável é que a realidade lhe tenha alterado os passos. Como disse o poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939): “Caminante, no hay camiño, se hace camiño al andar”. A chegada de Sharon ao poder foi manipulada a partir de um golpe de propaganda perigoso em 2000. Acompanhado por seguranças, ele insistiu em caminhar pela esplanada das mesquitas e pelo Domo da Rocha, conhecidos sítios muçulmanos de Jerusalém. Sua atitude foi um ato de provocação que detonou a nova Intifada. O eleitorado viu mais culpa nas ações palestinas do que no passeio do político e nas eleições de 2001 resolveu colocar no poder o melhor falcão de guerra do país. As batalhas campais explodiram na região com intensidade só vista durante as guerras. O plano do eleito era cuidar da situação à bala.
Ariel Sharon, nascido em 1928 na desértica Kfar Malal, sempre foi um homem de ação, acostumado com a violência e desafiador de convenções. Seus pais – de sobrenome original “Scheinermann” – migraram da Rússia depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A matriarca manteve um revólver debaixo do travesseiro até a hora da morte. Só não a enterraram com o berro por causa da oposição
firme de um rabino. A família toda mergulhou com gosto na luta pela independência, quando Ariel, em 1948, foi duas vezes ferido à bala – na barriga e na coxa – numa escaramuça junto à fortaleza de Latrun, dominada pelos britânicos. Em todos
os grandes conflitos de Israel, Sharon esteve presente. Nem sempre com a aprovação de seus comandantes. Ninguém duvidava de sua coragem, mas o impetuoso soldado era conhecido por desobedecer ordens, quando lhe parecia
que não eram as melhores.
O mais famoso e certamente mais trágico destes arroubos se deu durante a invasão do Líbano, que muitos consideram manobra precipitada por Sharon. Uma das conseqüências desse ato foram os massacres em campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em 1982. A execução do genocídio ficou por conta das milícias cristãs libanesas aliadas a Israel. Mas a responsabilidade pelos massacres caía diretamente sobre os ombros do então ministro da Defesa israelense, Ariel Sharon. Um tribunal do país o condenou indiretamente pelo episódio e o general perdeu o cargo. Desde então, ele vinha se opondo aos acordos de paz com palestinos. Tanto que um de seus primeiros atos como primeiro-ministro, em 2001, foi declarar a morte do acordo de Oslo e anunciar que com seu arquiinimigo Yasser Arafat não negociaria nunca, forçando o líder palestino a viver nos limites de sua fortaleza em ruínas, em Ramalá, até a hora da morte, em 2004.
Muro da vergonha – Mas a crescente onda de terrorismo e a multiplicação de homens-bomba e baixas entre os civis de Israel serviram para demonstrar que não havia modo de vencer a briga apenas com armas. Sharon arquitetou um muro gigantesco que serviria de barreira absolutamente concreta, separando judeus e palestinos. Um muro da vergonha, condenado internacionalmente, mas com apoio do governo americano. A medida, porém, demonstraria eficácia: diminuiu em 83% os atentados suicidas. E deu cacife para Sharon prosseguir num plano unilateral de paz.
Apesar das comemorações populares nos territórios ocupados, antecipando sua morte, a liderança palestina entrou em desespero. “Ruim com Sharon, pior sem ele. Quem falará por Israel a partir de agora?”, disse a ISTOÉ Abu Erekat, um dos principais negociadores do governo palestino. O líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, tem de enfrentar o crescimento dos radicais do Hamas, o partido armado, para as eleições locais em breve. Vê o governo mergulhado no caos, em meio ao isolamento a que foi condenado. Tudo isso contribuindo para um clima apocalíptico na região. Ariel Sharon, como se vê, sai de cena em hora errada.