09/02/2005 - 10:00
Brasil 1. O nome, simples e direto, batiza a primeira equipe brasileira na história da Volvo Ocean Race 2005-2006, prova de maior prestígio do iatismo mundial, maratona a vela oceânica ao redor do planeta que leva seus participantes a um enduro insano de contrastes e provações. Torben Grael – maior medalhista olímpico do País, dois ouros, uma prata e dois bronze – é o skipper (comandante) do Brasil 1, que reúne uma tripulação de 11 atletas em que os cinco brasileiros são maioria. A presença com indícios de favoritismo de Torben não encerra a participação brazuca na regata, que mobiliza durante oito meses as atenções do rico mundo da vela, inclusive com a transmissão televisiva que angaria a audiência de 1,5 milhão de americanos e europeus.
Entre os cinco concorrentes da Volvo definidos até o momento uma equipe carrega a marca Abn Amro – banco holandês dono do Banco Real –, que investiu 20 milhões de euros (cerca de R$ 70 milhões) para ter dois barcos na disputa. O primeiro deles agrega, como a equipe de Torben, uma elite de tarimbados profissionais. Já o segundo é formado por um grupo de jovens “amadores”. Eles estão sendo selecionados em vários países e estarão na prova acompanhados de dois profissionais em postos-chaves: navegação e comando. As aspas que acompanham a palavra amadores são necessárias. Ainda que não tenham mais que 30 anos – idade de corte para a seletiva – trata-se de marinheiros de várias viagens. Dois brasileiros estarão entre os dez tripulantes do segundo barco holandês. Por enquanto, são cinco na disputa final das duas vagas que acontece nos mês que vem, em Portugal. Entre os cinco selecionados, velejadores promissores, como Edgardo Vieytes, que participou da mais recente edição da America’s Cup – importante regata em várias etapas, disputada por apenas dois barcos. Entre os excluídos da última seletiva, Wilhelm Schurmann, atual campeão brasileiro de windsurf em cinco categorias e integrante da família Schurmann, célebre por dar a volta ao mundo num veleiro.
Vieytes e Schurmann – com sortes distintas – estiveram entre os últimos 19 classificados para a seleção que elegeu os cinco finalistas no Rio de Janeiro. Na quinta-feira 27, nas águas poluídas e calmas da bela Baía de Guanabara, ocorreu a última seletiva. Na chuva fina e com ventos econômicos, avaliadores holandeses alinharam suas últimas conclusões. Fim da regata-teste e os cinco foram anunciados numa cerimônia no Iate Clube do Rio de Janeiro, base das operações. Soube-se que o idioma inglês – língua oficial da regata – serviu para excluir competidores monoglotas que não esconderam sua ira, em bom português. “Os dois brasileiros escolhidos poderão, quem sabe, ganhar a Volvo Ocean e voltarem como heróis para o País”, dizia um otimista Jan Berent Heukensfeldt Jansen, holandês diretor das seletivas.
Alta velocidade – Os cinco – ao lado dos resignados eliminados – beberam cerveja e alguns refrigerantes para comemorar. O que vem pela frente, não só na escolha final em Portugal, e depois, na Volvo Ocean, é para quem tem sal nas veias. A Volvo Ocean é o Everest da vela, em seu itinerário pleno de obstáculos. Os garotos que celebravam risonhos e bronzeados estão diante da maior aventura de suas vidas. Jansen definiu a sensação de turbulência que vai acompanhá-los nestes oito meses, dia a dia. “É como você viver em cima do capô de um carro descendo em alta velocidade uma rua ondulada.” A velocidade no caso é de 70 quilômetros por hora, considerável para o mar. Ao ouvirem o disparo do revólver anunciar a largada da Volvo Ocean – que acontece na sexta-feira 5 de novembro em Sanxenxo, próximo de Vigo, no oeste da Espanha, cada um dos tripulantes embarca num lugar onde o conforto é zero e a fadiga física a grande companheira. Ao subir no barco, recebem uma mochila com duas bermudas, duas camisetas, um casaco e um calçado, tudo de gorotex, tecido impermeável, imune a suor. Vão dormir de três a seis horas ao dia – dependendo das condições climáticas – em camas de lona, beber água dessalinizada, se alimentar com sabores insossos de comida liofilizada, espécie de shake protéico, e, para reduzir ao extremo o peso do equipamento, são aconselhados a cerrar o cabo das escovas de dentes. Permanecem o tempo inteiro molhados, seja com a água salgada que inunda o tempo inteiro o veleiro de 70 pés – em torno de 21 metros –, seja com a doce, da chuva, única ocasião em que tomam banho. A temperatura durante os oito meses de regata oscila entre 48 graus positivos e dez negativos, e sobram perigos reais.
No trajeto atravessam as águas furiosas do Cabo Horn, temido corredor
náutico no extremo sul do Chile, enfrentam ondas de até nove metros,
capazes de arrebentar o barco feito todo de carbono e depararam com enormes icebergs. Há relatos, inclusive, de colisões com baleias. Em caso de naufrágio, os tripulantes podem carregar apenas a mínima ração de sobrevivência, estipulada em 667 gramas em torrão de açúcar e um litro e meio de água por pessoa, até a chegada do resgate. Entre companheiros de diferentes nacionalidades e pouco intimidade, há situações difíceis, naquelas inevitáveis horas. Como a bordo
é pouco confiável usar o único sanitário químico disponível, é preciso se pendurar para fora do barco. Uma técnica não muito diferente das relatadas nas viagens do capitão James Cook (1728-1779), explorador que deu três voltas ao mundo e definiu parte da geografia que conhecemos hoje. O problema, é que desta vez, a tecnologia joga contra. Há sete câmeras – seis fixas – espalhadas pelo barco, numa espécie de Big Brother flutuante.