No Natal de Brasília era mais fácil encontrar Papai Noel do que parlamentares. Pouquíssimos apareceram para trabalhar, mesmo com os bolsos recheados pelo salário dobrado: R$ 50 mil da convocação extraordinária determinada pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Matando descaradamente o serviço muitíssimo bem pago, deputados e senadores liberaram os tapetes do Congresso para os turistas. Crianças corriam aos gritos pelos plenários desertos. Vez por outra, tropeçavam num desgarrado representante do povo. “Me sinto um espécime raro. Virei atração turística”, divertia-se o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), posando para fotos. Parecia uma grande festa. Mas na verdade trata-se de um momento tão deprimente quanto um velório para o Legislativo. Uma desmoralização da política em pleno ano eleitoral.

Faz-de-conta – O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), pediu a convocação, sob o pretexto de não interromper o julgamento dos mensaleiros. Com a grana no bolso, Izar esqueceu a pressa e deu folga aos colegas. Alegou que não tinha testemunha para ouvir. Calheiros, que defendia a convocação “para não dar férias à crise”, se deu férias no litoral alagoano. Aldo, contrário à convocação, esquivou-se de julgar os que fugiram do serviço: “Não sou professor para dar nota a deputado e senador. A nota será dada pelos eleitores em outubro.” A paralisia do Congresso contagiou a Esplanada dos Ministérios: 17 dos 31 ministros viajaram. Ao contrário do resto do País, Brasília só volta a funcionar na segunda-feira 16. Até lá, boa parte do governo Lula imita a criançada e brinca de faz-de-conta: promete fazer agora o que não conseguiu realizar em três anos.

Na terça-feira 3, Lula e o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PL), informaram ao País o que sempre se soube: as estradas viraram peneira. Surpreso com a descoberta, no último ano de gestão, Lula anunciou uma operação tapa-buracos, com verba de R$ 440 milhões. Tenta cobrir o enorme rombo em sua imagem de administrador em ano eleitoral. Foi declarado estado de emergência em 7.251 quilômetros dos 22.441 a serem recuperados por empreiteiras que, pela urgência, serão contratadas sem licitação. Um mero remendo que, segundo o ministro, vai durar um ano – o suficiente para atravessar as eleições. “Após o valerioduto, teremos o buracoduto”, advertiu o senador Romeu Tuma (PFL-SP).

Doações – Na quinta-feira 5 o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais) disse que Lula deve se declarar candidato à reeleição até março. Rápido no gatilho, Lula anunciou no dia anterior um pacotaço de R$ 23,7 bilhões de investimentos em transportes e energia. Várias hidrelétricas não têm nem data certa para iniciar a construção. Tentando diminuir o estrago na já péssima imagem do Legislativo, Aldo prometeu: “Essa será a última convocação com grana extra.” Ressabiados, 35 deputados e quatro senadores devolveram a bolada. Outros 28 esqueceram de agir a tempo. Conseqüência: a primeira parcela, de R$ 12,8 mil, foi depositada. Com o dinheiro em conta, os deputados tentaram se safar alegando que doariam o produto da tunga. Mas, com o “excesso de trabalho” provavelmente “esqueceram” de avisar que as doações favoreceram suas bases eleitorais. Cansado de tudo isso, Lula tirou o seu descanso, de quatro dias: na quinta-feira embarcou com familiares para o litoral baiano. Ninguém é de ferro, só o cidadão que paga impostos.