09/02/2005 - 10:00
Um dos grandes desafios de quem precisa controlar o colesterol é manter uma dieta à base de frutas, verduras e legumes e eliminar do cardápio – ou pelo menos diminuir bastante – delícias como chocolate, massas e doces. Esses alimentos deleitam o paladar, é verdade, mas aumentam os níveis de LDL, a partícula de colesterol que entope os vasos sanguíneos e por isso mesmo é conhecida como o mau colesterol. Se não for controlado, o LDL pode contribuir para a ocorrência de infarto e acidente vascular cerebral (derrame).
Uma dieta criada por duas pesquisadoras, Márcia Nacif e Edeli Simione de Abreu, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), promete tornar menos sofrida a rotina dessas pessoas e também a de quem ainda não tem problemas – e assim pretende continuar. Para felicidade geral, o regime libera o consumo, moderado, claro, de guloseimas que antes constavam na lista vermelha. O sistema é uma adaptação da Dieta dos Pontos, usada para emagrecimento. Nesse esquema, cada alimento recebe uma quantidade de pontos, e, para que o objetivo seja alcançado, é estabelecido um limite de pontuação a ser atingida por dia.
Na tabela montada para o controle do colesterol, o raciocínio é o mesmo. Os alimentos receberam uma pontuação, conferida de acordo com a quantidade de colesterol e de gordura saturada – outro tipo de gordura prejudicial ao organismo – que apresentam. Quanto maior a presença desses nutrientes, maior o número de pontos. As pesquisadoras estabeleceram um limite de pontos de acordo com sexo e idade. Homens com até 55 anos, por exemplo, podem consumir o equivalente a 30 pontos diários. Já as mulheres até essa faixa etária, 25 . Na lista, há desde opções menos pontuadas, como uma unidade de banana frita (2 pontos), até uma omelete de queijo feito com um ovo, por exemplo, que bate na casa dos 18 pontos. Quem optar pela banana tem ainda bastante folga para comer outras coisas. Quem quiser saborear a omelete, tudo bem. Mas deve saber que sua cota de consumo de outros alimentos fica bem menor. Essa liberdade de escolha é o grande trunfo da dieta. “Ela é menos restritiva, o que a torna muito mais fácil de ser adotada. Cada pessoa pode criar seu cardápio sem deixar de lado os alimentos que gosta de comer. É só fazer as contas para não extrapolar a pontuação”, explica a pesquisadora Márcia Nacif.
Redução – A dieta foi testada em 62 pessoas que apresentavam taxas de colesterol elevadas, mas não tomavam medicamento. O grupo foi dividido em dois. Durante três meses, metade seguiu a dieta dos pontos e a outra fez um regime que impunha a restrição de alimentos. Ao final do período, os que optaram pela dieta dos pontos apresentaram redução de 18% no colesterol total (a soma do colesterol ruim, do HDL, conhecido como bom colesterol porque ajuda a limpar os vasos sanguíneos das placas de gordura, e do VLDL, partícula do colesterol nociva ao organismo, mas não tão prejudicial quanto o LDL). Eles também tiveram uma redução de 13% no colesterol ruim. Já o outro grupo mostrou resultado mais discreto: menos 10% de colesterol total e 9% de LDL. “Pelo resultado, o grupo que adotou a dieta restritiva não seguiu a orientação à risca. Esse é um comportamento comum às pessoas privadas de consumir certos alimentos. Elas tendem a se preocupar mais com aquilo que não podem comer e perdem o prazer pelos outros alimentos. Consequentemente, abandonam a dieta”, acredita a professora Elizabeth Torres, coordenadora do trabalho que deu origem à dieta. Outra constatação foi a de que, mesmo não buscando o emagrecimento, muitos dos que fizeram a dieta perderam peso.
O regime está publicado no livro Sistema de Pontos para Controle de colesterol e gordura no sangue (Ed.Metha, R$ 20, mais informações no site www.editorametha.com.br). Nele, há uma lista com 240 alimentos e suas respectivas pontuações. A médica Valéria Guimarães, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, vê com bons olhos a chegada de mais uma opção para ajudar no controle do colesterol. “No entanto, em casos mais graves o uso de remédios ainda é fundamental”, ressalva. Para o cardiologista Marcus Bolivar Malachias, diretor da Fundação do Coração, órgão ligado à Sociedade Brasileira de Cardiologia, quando se trata de prevenir doenças cardiovasculares, toda orientação saudável é válida. E, quanto menos rígidas as regras, maiores as chances de êxito. “Para cada 1% de colesterol reduzido, o risco de um infarto diminui 2%”, afirma. Segundo ele, pelo menos 40% dos adultos brasileiros têm colesterol total acima de 200 mg/dl. “Embora o limite aceitável de colesterol total seja 240 mg/dl, esse é um indicativo de que essa população necessita de atenção. Mudar hábitos alimentares é uma medida de prevenção”, diz. Vale lembrar que mesmo essa dieta, ou qualquer outra, não elimina a necessidade de fazer exercício físico. A atividade não faz baixar o LDL, mas aumenta a produção do HDL, o colesterol bom.