Aos 84 anos, o papa João Paulo II completa, neste ano, seu vigésimo sétimo aniversário de papado. É o terceiro mais longo da história, atrás somente de Pedro, o primeiro papa, e de Pio IX, o “prisioneiro no Vaticano”, que, no século XIX, governou a Igreja Católica por mais de 30 anos. Se, devido à duração do papado e às difíceis condições em que liderou a Santa Sé – durante a unificação da Itália –, Pio IX se considerava um “prisioneiro”, João Paulo II não demonstra nenhuma hesitação a respeito de sua missão à frente da Igreja – em um pontificado que, segundo ele, lhe foi dado por Deus e somente a Ele cabe a decisão de quando será o fim. Mas, mesmo com tamanha devoção, o papa polonês já há alguns anos convalesce no cargo. Desde que sofreu um atentado, em 1981, sua saúde nunca mais foi a mesma. O passar dos anos, o mal de Parkinson e outras cirurgias colocaram ainda mais peso sobre seus curvados e cansados ombros.

Nos últimos dias, notícias sobre a frágil saúde do papa causaram preocupação nos mais de um bilhão de fiéis católicos ao redor do mundo. Isso porque o papa foi a mais célebre vítima da crise de gripe causada pelo rigoroso inverno que atinge o Hemisfério Norte. Em Roma, pela primeira vez em dez anos flocos de neve caíram sobre os monumentos da capital italiana. Com o frio intenso, os idosos e as crianças são os que mais sofrem. E na terça-feira 1º, às 23h, horário local, o papa João Paulo II foi internado com dificuldades respiratórias provocadas por uma inflamação aguda na laringe e por espasmos na mesma região – agravados pelo mal de Parkinson –, o que impede que o ar chegue aos pulmões. O temor dos médicos é que o quadro evolua para uma pneumonia. O papa está internado no 10º andar do Hospital Gemelli, onde tem uma suíte especial reservada para ele. Segundo o porta-voz oficial do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, “não há motivo para alarme”. O papa não teria perdido a consciência, respira sem a ajuda de aparelhos (apenas com uma máscara de oxigênio) e seu coração e pulmões funcionam dentro da normalidade. No dia seguinte à internação, ele apresentava uma “leve febre”. “O papa se juntou aos milhões de italianos que pegaram gripe”, completou Navarro-Valls.

Além do mal de Parkinson, o papa sofre de artrite no joelho, que o impede de ficar de pé e caminhar. Com isso, nos últimos anos, autoridades do Vaticano conseguiram convencê-lo a respeitar sua própria saúde, diminuir as viagens internacionais e passar mais tempo descansando. Na última vez que apareceu em público, no domingo 30, durante sua tradicional audiência pública ao meio-dia, o papa apresentava disposição, apesar da rouquidão que já denunciava a inflamação na garganta. Da janela de seu escritório na Basílica de São Pedro, João Paulo II, rodeado de crianças, soltou duas pombas – que se recusaram a voar e voltaram para dentro da janela – para simbolizar a paz mundial. Desde que sofreu uma cirurgia para a retirada do apêndice, em 1996, o papa não era internado. Ainda mais no meio da noite. Some-se a isso a tradição do Vaticano de ser excessivamente lacônico quando se trata da saúde de seu principal líder e se há um panorama obscuro, em que é difícil dizer suas reais condições. Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, João Paulo II não queria ser internado e a dificuldade de convencê-lo foi o que impediu seus colaboradores de elaborar uma estratégia para a mídia, já que o Vaticano não pretendia divulgar a notícia imediatamente, que só vazou “por indiscrição hospitalar”, de acordo com o Corriere.

Por causa da internação, que veio no período em que o papa apresentava uma saúde relativamente boa, João Paulo II cancelou todos os compromissos públicos, inclusive a audiência das quartas-feiras, que não era cancelada desde setembro de 2003, quando o papa sofreu com problemas digestivos. O Vaticano não divulgou nenhuma previsão de alta para o pontífice, mas garantiu que ele não está (nem esteve) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o que poderia indicar uma maior gravidade do problema.