Nos tempos do Barão do Rio Branco, a diplomacia seguia o ritmo lento dos navios e trens. Cartas e relatórios, levados em pastas acorrentadas ao pulso dos diplomatas, eram a grande forma de comunicação. Viagens levavam meses e qualquer negociação, como no caso do Acre, entre Brasil e Bolívia, pedia tempo e paciência, muita paciência. Hoje, na era da comunicação instantânea, da globalização e das novas tecnologias, a diplomacia tornou-se literalmente a jato. Reis, presidentes, primeiros-ministros, diplomatas, dirigentes de organismos internacionais cruzam o mundo de ponta a ponta usando uma ferramenta básica: o avião a jato. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 57 viagens internacionais em seu currículo desde que assumiu a Presidência em 1º de janeiro de 2003 (a última foi a ida a Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico, encontro dos países mais ricos do planeta), é um dos expoentes dessa nova forma de fazer política externa. Mas o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, consegue bater o chefe na modalidade. Em 2003, Amorim fez 36 viagens internacionais. Algumas com Lula, mas a maioria agindo como precursor, cruzando oceanos e percorrendo continentes, seja em jatos comerciais, seja em jatinhos como os pequenos e veteranos Lear-Jet e HS-125 da FAB, em roteiros alucinados que começam pelo Brasil, seguem por algum país da América do Sul e passam pela África e Europa, até o regresso, tudo em poucos dias. O ano passado não fugiu à regra. Celso Amorim foi 32 vezes ao Exterior a serviço, na incessante costura dos acordos internacionais e das novas alianças estratégicas, políticas e comerciais que o Brasil entabula com países como a Índia, África do Sul e da região do Caribe, além dos parceiros tradicionais latino-americanos e europeus. A cada ano, ele tem passado em média 90 dias no Exterior, dormindo nas aeronaves ou em rápidas escalas entre um país e outro em meio a reuniões, audiências e negociações.

Do dia 11 até a madrugada do dia 19 de janeiro, ISTOÉ acompanhou a primeira viagem internacional de Celso Amorim este ano e teve uma amostra de seu estilo de viajar. O avião, é verdade, cresceu. Em vez dos jatinhos – Celso Amorim anda precavido com os Lear Jet depois que, em junho do ano passado, o jato em que voltava de Quito, no Equador, quase pegou fogo no ar – o ministro usou o Boeing 737–200 (o Sucatinha, apelido detestado pela FAB, que mantém o avião impecável), que servia como avião presidencial para viagens curtas de até cinco horas. Levou junto uma delegação com empresários, diretores de estatais e diplomatas e saiu em busca de negócios para o Brasil. O roteiro acabou ficando alguma coisa do tipo: “Se hoje é sábado, aqui deve ser o Senegal”. Foram nada menos que sete países (oito, se contada a escala para reabastecimento em Caiena, na Guiana Francesa, antes da travessia do Atlântico) e três continentes em oito dias. Os 51 componentes da delegação (tripulação incluída), que tinha a ministra Matilde Ribeira, da secretaria de Promoção da Igualdade Racial como convidada especial, percorreram quase 30 mil quilômetros em uma maratona que incluiu em cada escala visitas a presidentes, primeiros-ministros, chanceleres e ministros, além de reuniões de negócios.

Para Celso Amorim, também chanceler no governo de Itamar Franco, que não gostava muito de viagens ao Exterior, o estilo de Lula, adepto entusiasmado da diplomacia presidencial, representa “uma chance única para a política externa brasileira”. Ele destaca que o prestígio de Lula facilita o seu trabalho. “Quando a coisa é mais difícil, eu ponho a mão na tranca. E Lula empurra a porta. Mas, na maior parte das vezes, quando chego a um país, a simples perspectiva de uma futura visita de Lula deixa as portas escancaradas”, garante. O chanceler comemora o novo estilo de diplomacia do País. “Antes, nós éramos firmes com os fracos e fracos com os fortes. Isso mudou. Hoje apoiamos os fracos e enfrentamos os fortes de igual para igual.” Ele destaca que não se trata de brigar pelo prazer de dizer não, “e sim de ficar em uma posição de igualdade”.

Novo bloco – Na lista de sucessos da nova diplomacia brasileira está a formação do G-20 (bloco dos países em desenvolvimento – grandes produtores agrícolas – que revolucionou a Organização Mundial do Comércio), o G-3, que reúne o Mercosul, a África do Sul e a Índia, a consolidação e ampliação do Mercosul e o apoio crescente à presença do Brasil como membro permanente de um ampliado Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Alguns criticam que não deveríamos investir na busca de novos mercados e parceiros comerciais, e sim colocar a entrada na Alca (Área de Livre Comércio das Américas) como prioridade, a qualquer preço. Mas a verdade é que não deixamos de lado parceiros tradicionais. Nossas exportações para a Europa cresceram 30% e para os EUA, mesmo sem a Alca, 16%”, garante. “Não estamos trocando o Norte pelo Sul, e sim buscando ampliar a relação Sul-Sul”, afirma. Nesse aspecto, a viagem acompanhada por ISTOÉ promete dar frutos em futuro próximo. Trinidad e Tobago, que entrou no roteiro por causa de uma escala obrigatória na ida a Nova York para a reunião do Conselho de Segurança sobre o Haiti, poderá abrir as portas do Caribe ao Brasil. Camarões também é um ótimo mercado, pois o Brasil produz, mais barato, tudo o que o país africano importa da Europa. O Senegal também quer ser nossa porta de entrada para a África. A Nigéria, que exporta petróleo para o Brasil e já tem uma boa relação comercial com o País, deve ampliar suas compras por aqui.

O País colheu ainda seis votos para sua ida ao Conselho de Segurança, apoio à candidatura do embaixador Seixas Corrêa à secretaria-geral da Organização Mundial do Comércio, e confiança no G-20. E claro, convites entusiasmados para futuras visitas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro lembra que, sem o jato emprestado por Lula, a maratona feita em oito dias duraria quase um mês. Hoje, só há vôos diretos do Brasil para Cabo Verde (uma vez por semana) e Nova York. Ir ao Senegal ou à Nigéria requer escalas na Europa. “Temos que colocar nossas companhias aéreas no Caribe e na África”, insiste. No balanço geral, os companheiros de viagem do chanceler chegaram satisfeitos. Quase todos com jeito de quem tinha percorrido a distância a pé, derrotados pelas quase 40 horas de vôo e mudanças de fuso horário. Um teve fôlego para, logo depois do almoço, pegar um jatinho no mesmo dia da chegada e ir ao encontro de Lula em Letícia, na Colômbia. Claro, ele, Celso Amorim. “Ele tem pilha de superduração. É sempre o primeiro a acordar, quase de madrugada. É duro acompanhar”, admitiram diplomatas que, óbvio, pediram para não ser identificados.

Estratégia: “Nossas exportações para a Europa cresceram 30% e para os EUA, mesmo sem a Alca, 16%. Não estamos trocando o Hemisfério Norte pelo Sul e, sim, buscando ampliar a relação Sul-Sul” Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores