livros_01.jpg

Como nos títulos do argentino Jorge Luis Borges, aqueles que se aventuram por livros do francês George Perec correm o risco de se perder em meio aos espelhos e labirintos que ele foi construindo em sua obra composta por 20 livros lançados de 1965 até sua morte, em 1982, pouco antes de completar 46 anos. Membro destacado da Oulipo – acrônimo em francês de Laboratório de Literatura Potencial, grupo formado em 1960 por escritores, enxadristas e matemáticos que tinham como finalidade impor restrições artificiais à literatura, e ao qual pertencia, entre outros, Italo Calvino –, Perec era obcecado por jogos verbais e palíndromos – palavras, frases e textos que têm o mesmo significado se lidos de trás para frente.

A coleção particular (Cosacnaify, 96 págs., R$ 29,80), que nesta edição vem acompanhada de A viagem de inverno, a exemplo deste é um conto da última fase de produção do autor, escrito em 1979. O título refere-se a um quadro pintado por Heinrich Kürz no começo do século XX, sob encomenda do abastado comerciante de cervejas Hermann Raffke. A tela mostrava este diante de aproximadamente 100 quadros de sua coleção, minuciosamente reproduzidos. A maior parte do conto é ocupada pela procedência e a descrição desses quadros. Perec, na verdade, usou de citações de seu livro A vida modo de usar para escrevê-lo. O leitor fica sabendo disso através do posfácio de Adriano Schwartz, A ordem das palavras. O outro conto, bem mais curto, trata de um livro que “conteria todos os outros”. O curioso, principalmente no texto de abertura, é que em nenhum momento o leitor se sente enganado. As histórias são vibrantes e possuem desfechos surpreendentes.