09/02/2005 - 10:00
O compositor Noca, um dos remanescentes da velha guarda da Portela, nem sabe, mas, quando o Santos Dumont, mais conhecido como “Aerolula”, cruzava o Atlântico na madrugada do domingo 30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pensava em estrelas políticas ou pop stars da música internacional com quem conversou e de quem acabara de ouvir afinados elogios durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça. A bordo do airbus estreante em viagens intercontinentais, o presidente já estava com a cabeça no Brasil, tamborilando e cantando o samba da Portela deste ano.
Lula rateou ao arriscar a música inteira, mas sabia na ponta da língua a estrofe do samba Nós podemos: oito idéias para mudar o mundo, composto por Noca da Portela, Darcy Maravilha J. Rocha e Noquinha. O enredo da tradicionalíssima águia azul e branca de Madureira vai mostrar as prioridades da Organização das Nações Unidas (ONU) para o planeta. A escola de Paulinho da Viola vai desfraldar na Sapucaí os estandartes da fraternidade, do combate à fome, da igualdade e do desenvolvimento mundial. “A mensagem da Portela é para toda a humanidade. Vamos semear amor para colher felicidade”, entoava a voz rouca de Lula para os ouvidos atentos dos ministros Antônio Palocci (Fazenda), Eunício Oliveira (Comunicações) e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, reiterando, em verso e prosa, o que vem repetindo sistematicamente nos seus desfiles oficiais.
Lula esbanjava bom humor, mesmo após suportar os 20 graus negativos de Davos e encarar 14 horas de viagem até o Brasil. “Foram bons os encontros”, disse, avaliando a reunião com os prósperos empresários internacionais e seu discurso em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, um contraponto dos países pobres ao encontro dos magnatas. “A utopia é boa, mas temos que transformá-la em propostas objetivas, em atos”, refletiu em voz alta um pragmático presidente, recapitulando os cenários antagônicos que vivera nos últimos três dias. “Este ano será de realização. Não podemos nos abraçar à política. Temos que pensar no governo, em construção de estradas, casas populares, infra-estrutura e desenvolvimento”, arrematou Lula.
O recado foi para o presidente do BC e sua diretoria, que batem o bumbo
dos juros altos contra a inflação, desafinando o desenvolvimento. Mas
Lula evitou falar diretamente dos rumores de degola no banco. “Vamos
pedir o jantar agora e conversar em Brasília, numa reunião.” Mas, no vôo, o presidente repetiu um desabafo que já fizera em terras tropicais. “Só temos esse instrumento (juros) para controlar a inflação. É ruim, mas é o único que temos. Quem mais reclama de juros não toma dinheiro no mercado nacional, mas sim no BNDES e no mercado internacional. E são esses setores que vêm aumentando seus preços. É o caso do aço”, mencionou, deixando aberta a avenida para a importação de produtos que estão subindo de preço.
Depois de um singelo filé com arroz, acompanhado de vinho tinto nacional
enviado ao Aerolula pela Embrapa, pediu fones de ouvido para assistir
a DVDs de música caipira, pagode e MPB. “Esse negócio (fones) no ouvido é ruim, porque a gente não pode continuar conversando”, queixou-se, retirando intermitentemente os fones para fazer comentários sobre o País. Entre eles, desabafos sobre política interna. “O Virgílio (Guimarães, candidato avulso à presidência da Câmara) está criando dificuldades para o governo. Esse negócio dele com o (Anthony) Garotinho (ex-governador do Rio) passou dos limites. Vai ser difícil ajudar o Garotinho com a postura que ele está tendo”, disse o presidente, se referindo ao barulho que ele vem fazendo para que o PMDB vista a fantasia da oposição e ao pedido feito ao Planalto para antecipar R$ 350 milhões em royalties de petróleo ao Palácio das Laranjeiras. Para o governador gaúcho, Germano Rigotto, que encabeçou um movimento de independência no PMDB, Lula mostrou que não tem ressentimentos. Interpelou Palocci para ajudar Rigotto, que tem problemas financeiros, e jogou serpentinas ao afirmar que o governador era uma “pessoa séria”. Com tantos ruídos – juros, câmbio e cisões –, Lula vai mesmo esperar o Carnaval passar para afinar sua bateria.