09/02/2005 - 10:00
O clássico La dolce vita (1960),
de Federico Fellini, projetou para o mundo a beleza nórdica e farta de Anita Ekberg, mas também ajudou a difundir para o mundo as proezas da Vespa, veículo usado pelo jornalista Marcello (Marcello Mastroiani) e seu escudeiro, o fotógrafo Paparazzo – daí a origem do termo paparazzi. Como concorrente da Vespa, havia a Lambretta, criação de 1947. Moda na Itália do pós-guerra, as duas marcas eram ágeis, tinham baixo custo de produção e manutenção. Até hoje há uma grande opção de modelos e marcas herdeiros dos originais circulando na Europa. No Brasil, em 1955, antes de florescer a indústria automobilística, foi fundada no bairro da Lapa, em São Paulo, a primeira fábrica da Lambretta – que chegou a atingir, entre os anos de 1958 e 1960, a produção de 50 mil unidades por ano. Em 1982, a fábrica da Lambretta fechou. No ano em que completaria 50 anos no Brasil, as scooters sobrevivem graças ao baiano Osmani Araújo de Souza, 34 anos, que desde 2001 vive da restauração dessas pequenas motos.
Sua oficina, no subsolo do prédio comercial no Jaraguá, na zona oeste de
São Paulo, está adequado ao espírito retrô do trabalho. O sofá vermelho em corvin envernizado, as poltronas azuis no mesmo tecido, o abajur de três lâmpadas, algumas garrafas de vidro de Coca-Cola antigas, uma bomba de gasolina dos anos 50 e uma estante com várias miniaturas e quadros com propagandas de época. Ele comprou sua primeira Lambretta aos 17 anos. Era usada e verde metálica. Foi apelidada de Jurema.
Enquanto ganhava algum dinheiro fazendo serviços de entrega, ia aos poucos deixando a Jurema cada vez mais arrumada, até que um amigo quis comprá-la. Osmani, nem tão fiel assim, vendeu-a e comprou outra, que restaurou e vendeu depois. O hobby virou trabalho: “Meu objetivo é deixar a Lambretta no mesmo padrão da fábrica”, diz Osmani, que prefere colocar uma borracha ressecada a uma nova mas de cor diferente da original. Utiliza 35% de peças importadas. O restante é feito sob encomenda ou garimpado numa das 40 motonetas que ele tem em estoque. Além das raridades italianas nas quais Osmani está trabalhando, estão uma scooter alemã 1961 da marca Heinkel de 150 cilindradas e partida elétrica, que pertence a um colecionador de São Paulo, e uma Cezetta 1962 de 175 cilindradas, fabricada na Tchecoslováquia. Depois de entrar na oficina, elas só saem funcionando. O preço médio da restauração é R$ 8 mil. Investimento que vale a pena.