19/01/2005 - 10:00

O escritor existencialista Albert Camus (1913-1960) disse que só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Poeta, compositor, cineasta, ator e jornalista, o piauiense Torquato Neto se matou na madrugada seguinte ao aniversário de 28 anos, no Rio de Janeiro, em 1972. No bilhete final, avisou: “Pra mim chega!” e pediu para não sacudirem o filho Thiago e tirá-lo do sono tranquilo. Deixou a máquina de escrever quebrada. Sua obra, porém, ganha uma completa e caprichada compilação, dividida em dois volumes organizados pelo jornalista, escritor e professor carioca Paulo Roberto Pires, depois de dez anos de trabalho – Torquatália (Geléia geral) (Rocco, 408 págs., R$ 49) e Torquatália (Do lado de dentro) (Rocco, 368 págs., R$ 44).
Um ano após a morte de Torquato, sua mulher, Ana Maria Duarte, e o amigo e também poeta Wally Salomão lançaram o livro póstumo Os últimos dias de Paupéria, que teve uma edição mais alentada em 1982. Paulo Roberto Pires amplia sensivel-
mente o que já existia, apresentando, por exemplo, a correspondência integral – datada de 1971 a 1972 – entre Torquato, que vivia no Rio de Janeiro, em plena ditadura, e o artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), que morava em Nova York.
Os dois volumes dão pinceladas cronológicas na trajetória de Torquato, que sofria de depressão, chegando a se internar no sanatório de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Organiza ainda, de forma temática e não burocrática, sua imensa e fragmentária produção literária. Os textos – desde os poemas adolescentes – deixam claro sua constante inquietação. “O Torquato ia passando e queimando as pontes”, diz Pires. O volume Do lado de dentro se ocupa da faceta mais artística, enquanto Geléia geral – nome de sua coluna no jornal carioca Última hora – volta-se para seu trabalho jornalístico. Do lado dentro traz também suas 40 letras de música. Gilberto Gil, seu parceiro mais frequente, localizou nos anos 1990 duas canções extraviadas. Ele e Torquato assinam, entre outras, Geléia geral, do antológico álbum Tropicália ou Panis et Circensis, disco que consolidou o tropicalismo e tem Torquato no meio de toda a turma vanguardista. Com Gil ele também fez a bela Louvação. Em 1988, os Titãs gravaram Go back, a partir de um de seus poemas. Mais tarde, Caetano Veloso comporia Cajuína, em sua homenagem. O piauiense também atuou no cinema marginal, no papel-título de Nosferato no Brasil, super-oito de Ivan Cardoso, e militou intensamente na imprensa marginal.
Há uma biografia de Torquato, batizada de Todas as horas do fim, concluída há oito meses pelo jornalista paraense Toninho Vaz, também biógrafo do poeta curitibano Paulo Leminski. A Editora Record, que detinha o projeto, desistiu de publicá-lo, segundo Vaz, por causa de supostas ameaças da viúva, Ana Maria Duarte. “Desconfio que seja pela revelação da bissexualidade dele”, suspeita Vaz. Ana Maria rebate. Diz que se preocupa apenas com a obra do marido. “Não tenho interesse em sensacionalismo, em Big Brother. Ele (Vaz) não sabe quem foi Torquato, não conhece sua obra e não tem meu aval porque o livro é ruim.” Torquato não poderia estar mais vivo e polêmico.
