09/02/2005 - 10:00
Chegou a hora de ajustar a fantasia. Em janeiro de 2003, depois de 22 anos desfilando pela avenida como oposição, o PT teve de catar às pressas do guarda-roupa um traje governista. Pegou o primeiro que estava ao alcance. Vestiu-o em meio à festa da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a peça não caiu bem na estrela. Ficou desajustada, e muitos de seus passistas reclamam até hoje. Uns não se conformaram e acabaram abandonando o desfile pelo meio. Outros foram expulsos da pista. Aproveitando o Jubileu de Prata do partido – a ser comemorado na quinta-feira 10 –, os dirigentes petistas decidiram finalmente tentar ajustar o caimento político e ideológico de sua fantasia. Do jeito que está, não dá mais para desfilar. O figurino “partido de esquerda que chega ao poder” é complexo e precisa de mãos habilidosas na tesoura.
Em dezembro do ano passado, a cúpula petista decidiu que depois de dois anos na defensiva – protegendo o governo Lula de uma saraivada de críticas – era preciso partir para o ataque em 2005. A decisão foi tomada em uma reunião, em Brasília, junto com o presidente Lula e com os ministros do partido. É o “aggiornamento” petista – o processo de modernização tão conhecido pela esquerda européia, como o extinto Partido Comunista Italiano, que jogou fora a sua puída fantasia bolchevique. O roteiro da ofensiva dos 25 anos do PT já está traçado. No dia 19 de março, o partido faz uma grande festa de aniversário, em Belo Horizonte, com a presença do presidente Lula e de convidados internacionais. A partir daí, desencadeia um longo processo de debates internos que vão se prolongar por meses. Os temas são espinhosos, como os desafios da política econômica e o papel do partido, do Estado, e a relação do PT com os movimentos sociais.
O ápice desse divã petista será o 13º Encontro Nacional, em dezembro, que promete ser um dos mais disputados de sua história: o partido vai discutir e votar a atualização de seu programa de governo e a forma como irá disputar a Presidência da República em 2006, inclusive as polêmicas alianças. O atual programa do PT foi aprovado no Encontro Nacional do Recife, em 2001, véspera da eleição de Lula. Trata-se de um verdadeiro ninho de contradições e fonte de dores de cabeça para o governo Lula: o texto fala em ruptura, mudança do modelo econômico, rompimento com o FMI e por aí vai. Em 2004, o PT conseguiu diminuir a intensidade do fogo amigo ao aprovar no Diretório Nacional uma resolução que ratificava as diretrizes de atuação da política econômica do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Para evitar mais tiroteios este ano, Palocci já se dispôs a ir novamente a uma reunião da Executiva Nacional para defender sua ação e tentar amenizar as críticas, alimentadas, entre outras coisas, pela sequência de elevação da taxa básica de juros, a Selic.
Nova safra – O motivo do “aggiornamento” petista é simples: na defensiva, enfraquecido e mergulhado no poço da contradição, o PT não conseguiria desfilar bonito em 2006, quando o samba-enredo dominante serão as eleições para presidente da República, para governadores, além da renovação do Congresso Nacional e das Assembléias Legislativas. Um dos maiores motivos de ressaca para o Planalto é sua frágil rede de apoio no Congresso, que o deixa refém da sanha política. A própria bancada petista, tida como inexperiente e ineficiente, é alvo de preocupação. Assim, a idéia é tentar tirar das urnas em 2006 uma boa safra de deputados e de senadores. Dentro desse plano, encaixa-se como uma luva a proposta do presidente nacional do PT, José Genoino: um reencontro com o passado no momento em que o partido vive o auge das dissidências.
No primeiro ano do governo Lula, em dezembro de 2003, o PT expulsou três de suas estrelas radicais – a senadora Heloísa Helena e os deputados federais Luciana Genro e Babá. No final de janeiro, um grupo de 100 militantes anunciou a desfiliação conjunta no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Agora, Genoino vai propor ao PT que receba de braços abertos “três filhos pródigos”, como diria Lula: Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes, integrantes da primeira bancada federal do partido, eleita em 1982. Eles decidiram desobedecer à decisão do partido e em 15 de janeiro de 1985 compareceram ao Colégio Eleitoral para cravar o voto em Tancredo Neves. Antes mesmo de serem expulsos, os três se desligaram do partido. Curiosamente, na reunião do PT que decidiria o destino dos três dissidentes, duas vozes foram contrárias à punição: a de Genoino e a do próprio Lula. “Eu voltaria ao PT, mas é preciso saber em que contexto. Seria para disputar uma eleição? Fazer parte de um projeto político? O presidente Lula, por exemplo, tem o governo, mas não tem o poder. Não se mexe uma vírgula sem o apoio do Congresso. É preciso fortalecer a bancada do PT, ter maioria parlamentar”, comentou Airton Soares, que hoje vive da advocacia, mas na época das Direjas-já era o líder do partido na Câmara. Hoje, a sintonia é total: as preocupações da cúpula do Planalto e do PT são as mesmas de Airton Soares.
Sinal vermelho – Os resultados da eleição municipal de 2004 deram o sinal de alarme: a derrota de Marta Suplicy em São Paulo e a perda do bastião que era a Prefeitura de Porto Alegre, desde 1988 nas mãos do PT. Era o fim do segundo ciclo da história do partido, como definiu na época Tarso Genro – um dos principais teóricos do PT e ministro da Educação. O primeiro ciclo começou na sua fundação, no dia 10 de fevereiro de 1980, quando 1.200 pessoas aprovaram o Manifesto do PT, no Colégio Sion, em São Paulo. O segundo ciclo foi marcado pela ascensão do partido ao poder nas cidades, nos Estados e, finalmente, no Planalto. Para o terceiro ciclo, que se inicia agora, Tarso apontou a necessidade de uma reconstrução do partido. Estão abaladas as relações do PT com a classe média, com boa parte da intelectualidade e com suas bases, descontentes com o governo Lula. Para reatar com sua história, só mesmo uma “perestróika” petista, a exemplo do processo desencadeado por Mikhail Gorbatchov com relação à ineficiente economia estatal soviética, há exatos 20 anos.
Ondas gigantes – Crises no PT surgem como as ondas: uma atrás da outra. O partido viveu seu primeiro tsunami cinco anos depois da sua criação, com a saída de Bete, Airton e Eudes. O partido de Lula não poderia comemorar uma data tão redonda sem mais uma crise. A do momento tem como epicentro a eleição da Mesa da Câmara dos Deputados, marcada para a segunda-feira 14, na ressaca do Carnaval. A crise foi gerada a partir do momento em que o deputado Virgílio Guimarães (MG) decidiu se colocar como nome alternativo ao do colega Luiz Eduardo Greenhalgh, escolhido pela bancada para disputar a presidência da Câmara. Que não se engane a cúpula do PT. Apesar da anunciada disposição de abrir as portas do diálogo com o enorme bloco dos descontentes, este ano promete uma sucessão de ondas gigantes. Afinal, além da eleição da Mesa da Câmara, haverá ainda reforma ministerial – com a provável perda de espaço do PT no governo. A discussão de temas mais do que polêmicos também vai causar terremotos: reforma política, sindical, autonomia do Banco Central, entre outros. É preciso reforçar bem a fantasia para que ela não se rasgue antes do final do desfile, que será longo e tumultuado.