09/02/2005 - 10:00
Sinal amarelo para os homens:
as mesmas mulheres que décadas atrás se apressavam em trocar alianças agora buscam o fim do casamento. Enquanto o número de separações judiciais saltou de 87,9 mil em 1993 para 103,5 mil em 2003, dados do IBGE mostram que, de cada quatro separações litigiosas realizadas no País, três são solicitadas por mulheres. Advogados e psicólogos afirmam que a iniciativa feminina também está na raiz de mais da metade dos processos consensuais (requeridos por ambos). “As mulheres são maioria no meu escritório”, confirma o advogado Paulo Lins e Silva, diretor do Instituto Brasileiro de Direito da Família. “O principal motivo costuma ser de ordem financeira. Desemprego ou queda do poder aquisitivo em geral afastam o amor. Em seguida, vem a traição cometida pelo marido ou a desconfiança” conta ele.
O rosário de lamentações femininas é extenso. A falta de sensibilidade e de companheirismo e o comodismo de quem não aprendeu a dividir as tarefas são alguns dos detonadores das relações. Para o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador dos grupos de gênero do Hospital das Clínicas de São Paulo, as mulheres que antes reclamavam do homem troglodita hoje não toleram a infantilidade deles. “A maioria se queixa porque o marido não sabe se virar sem elas, não organiza programas e não consegue cuidar sozinho da própria saúde. Em outras palavras, elas reclamam do homem que, supostamente, não decide nada”, diz. Parte desse problema, segundo Cuschnir, está no fato de muitas mulheres fazerem escolhas precipitadas, com medo de passar do prazo ou para não posar de encalhada. Só descobrem quem o namorado é depois de casadas.
Meu querido estranho:
“Depois de 14 anos juntos, meu ex-marido e eu tínhamos cada vez menos diálogo. A situação foi agravada por um período de desemprego conjunto. Em vez de ajudar, meu ex-marido me culpava pela situação. Passamos a nos evitar. Até o sexo ficou mecânico, por culpa dos dois. E ele reclamava de tudo. Um dia, começou a brincar com a idéia de separação. Aquilo me deixou em pânico. A diferença entre os homens e as mulheres é que eles, mesmo querendo, não assumem a vontade de se separar. Mas tornam a situação insustentável à espera de uma decisão nossa. Resolvi ir embora e nosso filho ficou comigo.” Luiza Lusvarghi, 48, paulista, professora universitária
Esse cenário de insatisfação não é exclusividade brasileira. Estatísticas preliminares de uma pesquisa em andamento em 30 países – no Brasil, o estudo foi feito pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e contou com duas mil entrevistas – confirmam o descontentamento feminino. Nos EUA, por exemplo, 92% das mulheres acham que é preferível não casar a manter um casamento ruim, sensação compartilhada por 84% dos homens. Ao mesmo tempo, 36% das mulheres e 46% dos homens americanos acham que os casados
são mais felizes do que os solteiros. No Brasil, a resposta à pergunta “É certo o casal viver junto sem querer o casamento”, incluída no estudo, comprova a tendência. “Aqui, a idéia de namorar e não casar é aprovada por 70% das mulheres e 68% dos homens”, destaca a socióloga baiana Clara Araújo, responsável pela pesquisa no País. “Essa diferença pode ser motivada pela presença das mulheres no mercado de trabalho sem que isso corresponda a uma redução de suas responsabilidades domésticas”, especula.
Além de insatisfeitas, as mulheres parecem
mais corajosas na hora de dar um basta à infelicidade conjugal. “Antigamente, o que as segurava era a dependência financeira. Hoje, elas não perdem tempo. Os homens empurram com a barriga, trabalham mais, bebem mais, arrumam uma amante, mas não se desvinculam tão facilmente da esposa”, observa o psiquiatra e psicanalista paulista Moacir Costa. Para ele, é importante que os homens ouçam as esposas e descubram coisas para fazerem juntos. “Há alternativas à novela das oito”, ironiza. O médico não se refere apenas ao sexo, embora uma vida sexual ativa seja importante. Pesquisa feita pelo Projeto Sexualidade, da Universidade de São Paulo, mostrou, inclusive, que a maioria das mulheres ficou satisfeita com o advento dos remédios contra a impotência. No entanto, isso se deve mais ao fato de os medicamentos devolverem a auto-estima ao marido, tornando-o novamente interessante, do que à volta da virilidade.
De modo geral, os homens insistem mais no casamento por causa das
implicações do divórcio. “Tradicionalmente, são eles que saem de casa.
Mesmo quando concordam que a relação está ruim, perguntam: ‘Mas precisa separar?’”, diz a psicanalista Terezinha Féres-Carneiro, da PUC/Rio. Por essas e outras, a idéia da união para sempre perde espaço para o que o psicólogo carioca Bernardo Jablonski chama de “monogamia serial”, ou casamentos sucessivos. Ele faz um paralelo entre o aumento da longevidade e a falência do conceito do “até que a morte os separe”. “Na França de 1900, a expectativa de vida não passava dos 47 anos. Hoje, em vez de morrer, as pessoas se divorciam”, resume. O alívio é saber que há vida após o divórcio.