Uma obra-prima do barroco brasileiro passa por recauchutagem: o Mosteiro de São Bento, erguido no centro do Rio de Janeiro em 1590, importante ponto turístico por sua história, pela beleza e pelas missas ao som de cantos gregorianos. A intervenção começou pela Capela do Santíssimo Sacramento, que guarda as hóstias. Com seu interior ornado por folhas de ouro, a capela foi construída entre 1795 e 1800 para abrigar um altar de São Cristóvão. Um mês depois de a Concre-
jato, empresa especializada em restauração, iniciar a obra, os técnicos ainda encontram cupins no madeirame. A intervenção é acompanhada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 

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É um trabalho de formiguinha. Os profissionais batem na superfície com uma ferramenta, centímetro por centímetro, buscando o som oco que denuncia a presença dos cupins. Ou usam um aparelho para aferir a umidade de cada trecho, cujo excesso também indica a existência dos insetos. A minuciosa tarefa de recuperação é feita por restauradores e estudantes de belas artes e museologia da empresa Arte Cidade Restauro. O trabalho culmina com o polimento das folhas de ouro por meio de pedra de ágata, chamado de douramento clássico. “Ela será feita de cima para baixo, do forro para as paredes laterais”, explica a artista plástica Paula Rocha, que coordena o grupo. “Da telha à talha”, completa a arquiteta Thais Antoniazzi, da Concrejato.

Quem visita o mosteiro estranha os andaimes que tomaram conta da Capela do Santíssimo, a última à esquerda do altar-mor. A primeira etapa, executada com R$ 1 milhão do BNDES, igual valor da Petrobras e R$ 80 mil de Furnas, servirá de modelo para o restante da igreja, predominantemente barroca, com elementos de rococó e de estilo eclético. O trabalho começa pela retirada do pó acumulado há 26 anos – data da última intervenção –, seguida da limpeza química com solventes para remoção de materiais antigos e fixação das folhas de ouro soltas em várias partes. Será feito ainda o preenchimento das galerias formadas pelos cupins e demais trincas na madeira. A área externa também é monitorada para evitar as reinfestações e sofrerá revisões durante cinco anos. “Faremos tudo em etapas, cada uma do início ao fim”, esclarece Ronaldo Ritti, diretor da Concrejato.

Por trás da obra está o abade dom Roberto Lopes, 50 anos, que passou 20 deles construindo o Mosteiro da Ressurreição em Ponta Grossa, no Paraná, e foi eleito abade do templo beneditino em julho passado. Logo percebeu como o tempo agravou a proliferação de insetos, colocando em risco as centenárias estruturas. É o próprio mosteiro que controla os recursos da obra, obtidos via Lei Roaunet. “Precisamos preservar este patrimônio, que é da humanidade”, defende o abade. Ele já contou a visita de 300 turistas ao mosteiro em apenas um dia.