02/01/2009 - 10:00
Os moradores do Complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro que costuma ser notícia pela guerra do tráfico de drogas, foram protagonistas nesse Natal de um dos atos da tragédia que se abateu sobre o Estado. Tristeza, medo e desespero devido às fortes e constantes chuvas desse início de verão. Desabamentos e corpos soterrados. No Morro do Alemão, Tereza Firmino Teixeira e seus três filhos morreram dormindo – estavam entre as primeiras vítimas. Até o final da tarde da quarta-feira 26, a Defesa Civil contabilizava em todo o Estado 49 mortos e cerca de duas mil pessoas entre desaparecidos e desabrigados. A cidade de Petrópolis, na região serrana e onde moram os membros da família imperial, registrava o maior número de vítimas: 34 mortos. Em dois dias choveu o que era esperado para todo o mês de dezembro.
No bairro do Contorno, em Petrópolis, diversos moradores foram acordados no dia de Natal com o estrondo de um deslizamento de terra que destruiu quatro casas. “Preferia que só eu tivesse morrido”, desesperava-se o comerciante Fernando Luiz Pedroso. Ele perdeu a cunhada e três sobrinhos. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o comerciário Rodrigo da Silva Barreto ajudava no resgate de vizinhos que foram vítimas de deslizamentos de terra. Morreu soterrado por uma barreira na rodovia que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte. Foi sepultado como herói.
O governador Anthony Garotinho e o ministro da Integração Nacional, Ney Suassuna, sobrevoaram de helicóptero as áreas mais atingidas pelas chuvas. O ministro repetiu diversas vezes que o governo federal está empenhado em socorrer o Estado. Não conseguiu, no entanto, evitar as acusações de Garotinho: “No ano passado, numa situação menos grave do que essa, o governo federal se comprometeu a liberar R$ 7 milhões. Nada nos foi dado. Espero que dessa vez eles cumpram as promessas.” O Sistema Integrado de Acompanhamento Financeiro (Siafi) calcula em R$ 28,7 milhões a verba necessária para as obras de prevenção de enchentes.
O prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito, jogou a culpa pela tragédia nas costas de Garotinho. “Alertei para a necessidade de obras de desobstrução de canais em Caxias, mas nada foi feito”, disse ele. Até a quarta-feira, Duque de Caxias registrava seis mortos e aproximadamente 400 famílias desabrigadas. Já o prefeito da capital, Cesar Maia, preferiu elogiar a si próprio. Disse que em suas duas administrações foram investidos R$ 700 milhões na defesa contra as chuvas: “As tragédias na cidade foram individuais, não atingiram coletivamente a comunidade como em outros lugares.” Sem tempo para dar ouvidos às declarações das autoridades, a população das áreas de risco continua alternando cada minuto entre a luta pela sobrevivência e a solidariedade às vítimas. Ouve atentamente, isso sim, as previsões meteorológicas. Que anunciam mais chuva. De granizo.