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PERSONALIDADE
“Mesmo sendo um governo de continuidade, há
uma presença significativa da presidente”
, diz Temer

No dia 11 de abril, com Dilma Rousseff em missão oficial na China, o vice-presidente da República, Michel Temer, assumirá o comando do País pela terceira vez na gestão atual. Dentro de seu proverbial estilo low profile, fará o possível para fugir de polêmicas e, certamente, procurará passar despercebido. A cara do governo, segundo ele, é a da presidente. Temer acredita que, em três meses, Dilma já conseguiu moldar a administração do País a sua personalidade, mesmo que este seja um governo de continuidade. Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, concedida em seu gabinete ao lado do Palácio do Planalto, Temer destacou a “sensibilidade política” da presidente e afirmou que o PMDB “não é um partido fisiológico, é governo”. Mas reconheceu que a pecha pegou, embora “injusta”. Ele também esquivou-se das acusações de que esteve envolvido num esquema de cobrança de propinas patrocinado pelo PMDB paulista.

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"As acusações (sobre a corrupção no porto de Santos) são improcedentes.
Ao longo dos meus 28 anos de vida pública, alguns tentam quebrar o meu moral”

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“A Marcela se assustou com a notoriedade muito grande,
mas foi uma coisa passageira. Ela está cuidando do meu filho"

ISTOÉ –

Sua influência na administração do porto de Santos (SP), no final da década de 90, sempre foi conhecida. Agora o sr. é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal sob a suspeita de participar de um esquema de cobrança de propina de empresas detentoras de contratos naquele porto. Como o sr. responde a estas acusações? 

Michel Temer –

As acusações são absolutamente improcedentes. Ao longo dos meus 28 anos de vida pública, alguns tentam quebrar o meu moral. Não conseguiram até hoje e não conseguirão. Não há nenhuma conexão entre o que se acusa e a realidade dos fatos. Essas cogitações são totalmente improcedentes. E tão improcedentes que a Procuradoria-Geral da República arquivou, em 2002, procedimento sobre as mesmas alegações porque entendeu que eram baseadas na absoluta ausência de provas. 

ISTOÉ –

A que o sr. atribui o ressurgimento do assunto mais de dez anos depois? 

Michel Temer –

Como mera cogitação, imagino que seja em razão das eleições do ano passado. Aquele inquérito foi iniciado em 2006. Em quatro anos do inquérito, jamais se mencionou o meu nome. Repentinamente, em julho de 2010, quando estava em curso a eleição e eu era candidato à vice-presidência, sou mencionado… 

ISTOÉ –

O governo Dilma Rousseff está completando 100 dias. Como o sr. vê este período? Acredita que houve avanços em relação ao último governo? 

Michel Temer –

O balanço é extremamente positivo. Tão positivo que está retratado nas pesquisas de opinião, em que a presidente Dilma Rousseff tem índice de aprovação ímpar, mesmo em comparação com outros governos. Este é um governo de continuidade, mas há uma presença muito significativa da presidente Dilma nos mais variados assuntos. A presidente impôs sua personalidade inclusive em assuntos internacionais, ganhando o aplauso da sociedade brasileira e da opinião pública, de um modo geral. Este governo já tem cara própria. 

ISTOÉ –

A economia tem preocupado mais do que o esperado?  

Michel Temer –

A economia sempre preocupa. Mas a presidente tem deixado claro que não permitirá o retorno da inflação. Nas reuniões de coordenação de que tenho participado, vejo a presidente acionando os mais variados setores que cuidam da economia do País para impedir inflação de preços. 

ISTOÉ –

Tem sido difícil conciliar a tarefa de vice-presidente com a posição de presidente licenciado do PMDB? Como o sr. fica quando há pressões para ocupar cargos no governo, por exemplo? 

Michel Temer –

Quando há um problema de natureza política, nós agimos muito em conjunto – eu, o ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, e o da Casa Civil, Antônio Palocci –, com a presidente Dilma Rousseff coordenando tudo. Agora, sobre essa questão dos cargos, o PMDB entende que não é um simples aliado. É governo. E a presidente sempre se recorda desse fato também. Na questão do salário mínimo, por exemplo, em que nós votamos unidos, eu e o líder Henrique Alves dissemos que o PMDB tem o vice-presidente da República e não dá para votar fatiadamente. O PMDB só tem projeção e respeitabilidade política se agir unificadamente. E foi isso o que aconteceu. 

ISTOÉ –

Com esses recados que tem dado nas votações importantes, o PMDB passou a ter mais autoridade para negociar cargos do segundo escalão?  

Michel Temer –

As questões relativas à participação do PMDB no governo não precisam de recado algum. Como o PMDB está no governo, é natural que no preenchimento dos cargos de segundo escalão o governo chame quem é governo para governar. Não existe cobrança de fatura. O problema é que as pessoas não acreditam nisso. 

ISTOÉ –

O PMDB perdeu espaço no governo? 

Michel Temer –

Numericamente não perdeu. Pode ter perdido em substância política nos ministérios. O PMDB tem o mesmo número de ministérios e tem o vice-presidente. 

ISTOÉ –

Mas há um acordo para se compensar essa perda de substância, agora, na composição do segundo escalão? 

Michel Temer –

Vai depender da forma como o governo vai encaminhar. É provável que se prestigie o PMDB. 

ISTOÉ –

Essa pecha de fisiológico que pesa nos ombros do PMDB é justa? 

Michel Temer –

É injusta, porque o PMDB participou das eleições, foi parceiro e ganhou as eleições com o PT. O PMDB não é fisiológico, é governo. Mas a pecha pegou no PMDB e nós temos que lidar com isso. Deputados e senadores estão preocupados com as questões temáticas, exatamente para impedir essa alcunha. 

ISTOÉ –

Como tem sido sua relação com a presidente Dilma? 

Michel Temer –

Muito tranquila. A relação é extraordinária no plano da presidência e vice-presidência. No plano pessoal, muito adequada e correta. A presidente tem me entregado tarefas e pedido para coordenar determinados grupos. Também me pede sugestões. Enfim, aqui a gente depende muito do que a presidente deseja. 

ISTOÉ –

Se a relação vai bem, então a presidente nunca chamou o sr. de “santinho”, como ela costuma chamar a quem está repreendendo? 

Michel Temer –

Não, não. Nem a mim nem a ninguém, que eu tenha visto. ­Aliás, eu não vi essa coisa de que falam, que ela é autoritária e centralizadora. É claro que uma coisa é você ser executiva. Ela, como executiva, talvez fosse durona. E talvez demandasse a execução com uma certa dureza. Mas desde que assumiu a veste de candidata, ela passou a adotar outro perfil. E agora, evidentemente, sabe que o cargo de presidente exige outro comportamento, que não é o de ministra da Casa Civil. Nas reuniões de que eu tenho participado, ela tem ouvido muito, antes de tomar o caminho que considera adequado. Aliás, ao contrário do que falavam, ela tem muita sensibilidade política. 

ISTOÉ –

Como é a experiência de assumir a Presidência, com as viagens da presidente Dilma? 

Michel Temer –

Não muda nada. Continuo a minha rotina na vice-presidência. 

ISTOÉ –

A morte do ex-vice José Alencar comoveu o País. Como era sua relação com ele e qual legado o sr. acha que ele deixa para o Brasil? 

Michel Temer –

Era uma relação fraterna. Ao longo do tempo, ele sempre me prestigiou muito. Quando fui eleito presidente do PMDB pela primeira vez, tive a honra e a alegria de vê-lo me apoiando. Depois, por outras razões, ele teve que abandonar o partido. Quando se transformou em vice-presidente da República, estive inúmeras vezes com ele para ouvir seus conselhos. Ele deixa o legado da persistência, da alegria de viver. E, convenhamos, o exemplo de, ao expor a sua doença, diminuir o pavor que a simples menção de seu nome feio provocava nas pessoas. 

ISTOÉ –

Com o sr. neste cargo há a reto­mada de uma tradição da política brasileira, que é ter um vice-presidente representando um partido forte. Isso é importante para o desempenho da função? 

Michel Temer –

Acho que politicamente sou útil para o País com minha história parlamentar. Pode pegar minha agenda e vai ver o número de parlamentares que passaram por aqui até agora. Recebi gente de todas as agremiações políticas. Isso ajuda e compõe bem a vice-presidência com a Presidência. 

ISTOÉ –

É possível aprovar uma reforma política este ano? 

Michel Temer –

Acho que ela já amadureceu. A reforma política não foi feita no passado por causa de uma inação do Legislativo, que não a fez porque quis manter o que existe hoje. Agora eu acredito que há vontade política. 

ISTOÉ –

O chamado distritão, que o sr. defende, não pode fragilizar os partidos? 

Michel Temer –

No passado, fui favorável ao voto em lista, sob o fundamento de que fortalece os partidos. Mas isso não passa na Câmara nem no Senado. A história do caciquismo local impede a ideia da lista. Para mim, por exemplo, por um longo tempo a lista seria totalmente confortável. Certamente, eu ocuparia o primeiro ou o segundo lugar na lista. Mas senti que não seria possível transitá-lo. Não sendo possível, o que a minha experiência detectou no Congresso Nacional? Que o voto proporcional acaba violando a regra criadora do Estado. A regra que diz quem é o dono do poder. Democracia é o governo da maioria, não é? Respeitando o direito da minoria. 

ISTOÉ –

No Legislativo não acontece isso? 

Michel Temer –

Na única hipótese em que a minoria pode governar, e governa, é na hipótese do voto proporcional. Deste sistema nasce o coeficiente eleitoral, em que o número de votos obtido pela legenda leva a tantos deputados. Daí surgem distorções. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a Luciana Genro recebeu 128 mil votos, mas não foi eleita. No famoso caso do Enéas, ele puxou um deputado que teve apenas 275 votos. O Chico Alencar, na última eleição, carregou o ex-BBB Jean Wyllys, que teve 13 mil votos. 

ISTOÉ –

O PMDB ainda sonha em ocupar a Presidência da República? 

Michel Temer –

Todo partido almeja chegar ao cargo máximo. Mas o PMDB tem sido participante muito ativo dos governos. No governo anterior, tivemos um protagonismo administrativo bastante acentuado e neste governo ocupamos a vice-presidência da República. O PMDB está cumprindo seu papel. Se vai ter candidato à Presidência ou não, é uma coisa lá para a frente. 

ISTOÉ –

Marcela Temer, sua mulher, foi foco de muita atenção na posse e tem merecido destaque na imprensa. Isso incomodou vocês? 

Michel Temer –

A Marcela se assustou com a notoriedade muito grande, mas foi uma coisa passageira, sem muita preocupação. Ela está cuidando do meu filho. Sempre fui muito discreto, estou casado há oito anos e nunca fiz nenhum exibicionismo. Não é do temperamento dela nem do meu. Mas no dia da posse a presença de Marcela era inevitável.