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ESPERTEZA
Mantega vê mercados apostando na
instabilidade para aumentar seus lucros

Confirmado no cargo pela presidente eleita Dilma Rousseff, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que está trabalhando “para dois chefes”. Continua a prestar serviços ao pre­­sidente Lula e, simultaneamente, participa de todas as discussões sobre o futuro governo. De um lado, garante as receitas que sustentam as últimas realizações da era Lula e, de outro, traça o austero programa de contenção de gastos que Dilma adotará no início de sua gestão. “O impacto do ajuste fiscal começa no dia 1º de janeiro”, afirmou Mantega em entrevista exclusiva à ISTOÉ. Ele promete um corte de 30% nos recursos de cada ministério, mas explica que isso não vai significar retração da economia: “Não será a contenção conservadora do passado, que derrubava o crescimento do País. O Estado vai gastar menos e abrirá espaço para o setor privado.” Um incentivo ao investimento produtivo será a queda nas taxas de juros. Ao contrário da maioria dos analistas, Mantega considera que os preços são pressionados por fatores sazonais e não vê motivo para o Banco Central aumentar a taxa básica de juros. “O mercado é apressadinho para aumentar os juros, porque não gosta de indicadores estáveis.”

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"Lula teve o resultado que queria. Ficou satisfeito em ter um País crescendo
e a população melhorando. Até rico melhorou de vida neste governo"

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"Essa história de que eu não tinha bom relacionamento com o Meirelles
é um pouco de conversa. O BC é conservador por natureza"

ISTOÉ –

O sr. tem falado da necessidade de conter os gastos. Isso significa que 2011 será um ano difícil para a economia brasileira?

Guido Mantega –

Não. Algumas pessoas dentro do setor público vão chiar, vão ter menos dinheiro. Alguns ministérios poderão reclamar porque terão menos recursos. Estamos decididos a fazer um corte de gastos. É uma decisão da presidente Dilma. Mas não será a contenção conservadora do passado, que derrubava o crescimento do País. O setor público será substituído pelo privado. Em 2009 e 2010, para superar a crise econômica, o Estado gastou mais para estimular a economia. Tivemos que dar mais subsídios e desoneramos tributos. A demanda pública complementou a demanda privada, que em 2009 deu uma fraquejada. Agora que a economia já está fortalecida, o Estado vai abrir espaço para o setor privado.

ISTOÉ –

O setor privado tem capacidade para ocupar esse espaço?

Guido Mantega –

Vamos diminuir gastos, principalmente de custeio, ampliando o espaço para investimentos e redução de juros. É uma combinação de política monetária e fiscal. Nos últimos dois anos fizemos mais política fiscal, que é desonerar tributos, fazer mais gasto público e gerar emprego pelo gasto público.

ISTOÉ –

Como convencer o empresário a aplicar em infraestrutura, quando ele tem um retorno maior nas aplicações financeiras?

Guido Mantega –

Os juros vão cair.

ISTOÉ –

Quando?

Guido Mantega –

Não existe uma data. É uma definição teórica. Criaremos as condições para que o Banco Central reduza os juros. O impacto do ajuste fiscal começa no dia 1º de janeiro. Se o governo diminuir o gasto público, a demanda nacional tende a reduzir. Então o governo precisa dar um estímulo monetário para que o setor privado substitua o Estado. Não vamos desativar os programas, o PAC vai continuar. O investimento continuará sendo estimulado. O que será reduzido é o gasto com custeio.

ISTOÉ –

A pedido da presidente Dilma, está sendo elaborado um programa de forte redução de gastos. Em que proporção?

Guido Mantega –

Todos os ministérios estão sujeitos a redução no Orçamento, o que significa que vamos pegar cada ministério e retirar cerca de 30% do recurso que eles têm hoje.

ISTOÉ –

Haverá cortes na folha de pagamento?

Guido Mantega –

Não haverá aumento de pessoal. É um duplo movimento: reduzir os gastos existentes e impedir novos gastos. Também será uma boa oportunidade para rever todos os custos. Todos os ministérios têm contratos de serviços. As secretárias, os seguranças e os motoristas são terceirizados. Como terão menos recursos, terão que dar uma enxugada e renegociar contratos. Todos os custos estarão sob questionamento e em várias áreas haverá projetos que serão realizados um pouco mais adiante. É salutar, porque isso também é feito pelas empresas do setor privado.

ISTOÉ –

Pode haver até o retorno da inflação, caso o Estado não se contenha…

Guido Mantega –

Sim, se juntar o aumento do gasto público com o aumento do gasto privado. O que precisamos hoje é reduzir a participação pública e aumentar a participação privada e para isso é preciso estímulos monetários e mesmo fiscais. Havendo espaço, vamos reduzir tributos. Até porque não queremos reduzir o PIB. Não será um PIB como o deste ano, de 7,5%, mas 2010 foi excepcional, porque sucedeu um ano de vacas magras. A nossa meta é de 5% em 2011.

ISTOÉ –

O sr. esperava o convite para continuar no cargo?

Guido Mantega –

Não diria que esperava o convite, mas havia certa lógica de que fosse feito. Tenho uma grande afinidade com a presidente Dilma. Nós temos uma grande sintonia de pensamento e, desde que passamos a trabalhar juntos, fomos parceiros. Por um lado o presidente Lula teve o resultado que ele queria. Ficou satisfeito em ter um país crescendo, a população melhorando de vida, desde o pobre até o rico. Até rico melhorou de vida neste governo.

ISTOÉ –

Há um ano o sr. nos alertava, em entrevista, de que a economia seria um excelente cabo eleitoral…

Guido Mantega –

É verdade. A economia quando dá certo é o melhor cabo eleitoral. Por outro lado, a economia pode destruir a reputação de um governante. Se for bem, ela consagra. Se for mal, ela destrói.

ISTOÉ –

Fala-se muito que, nos últimos quatro anos, havia atrito entre a Fazenda e o Banco Central. O BC não tinha a mesma visão que a Fazenda a respeito da economia. Não era desenvolvimentista. Agora, com Alexandre Tombini, haverá uma equipe econômica mais homogênea?

Guido Mantega –

Para um país que adotou o regime de metas de inflação, o BC, por definição, não pode ser desenvolvimentista. Ele é conservador por natureza. Ele não pode pensar muito. Tem que olhar para a meta de inflação e cumprir a meta. É diferente do Fed (Banco Central americano), que não tem meta de inflação. O BC brasileiro é um cum­pridor de tarefas, pois quem define a meta de inflação é o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo ministro da Fazenda.

ISTOÉ –

Mas pode haver um relacionamento melhor?

Guido Mantega –

Essa história de que eu não tinha um bom relacionamento com o Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do BC) é um pouco de conversa. Nós tivemos divergências de avaliação que qualquer economista tem. Se sentarem aqui o meu amigo Aloizio Mercadante, o Delfim Netto, que eu admiro muito e é um dos melhores economistas que temos, e o Belluzzo (Luiz Gonzaga), eles poderão divergir da dinâmica da inflação hoje. Posso dizer que o que está pesando são fundamentalmente commodities, alimentos e mais combustíveis, de efeito sazonal.

ISTOÉ –

O sr. defendeu isso durante todo o ano.

Guido Mantega –

E eu provo isso, porque tenho o gráfico do BC. Sem a sazonalidade de alimentos e combustíveis, a inflação não está subindo, está em 4,89%.

ISTOÉ –

É conveniente retirar alimentos e combustíveis do índice de inflação?

Guido Mantega –

Não, porque os preços vão e voltam. Não vamos retirar nada do índice de inflação. Estou falando que, para motivar a política econômica, temos que olhar o núcleo, pois tem sazonalidade. Se pegarmos o gráfico do IPCA, ele sobe e desce e, em geral, os responsáveis são os alimentos. No início deste ano, o período de chuvas prejudicou algumas safras e o preço do álcool subiu 30%. Além disso, as commodities estavam em alta. Falei, e está registrado, que naquele momento era uma inflação de alimentos e não de demanda. A prova dos noves é que, depois que passaram as chuvas, a inflação caiu e nós ficamos três meses com o IPCA próximo de zero.

ISTOÉ –

O fato de Alexandre Tombini substituir Henrique Meirelles no BC não mudará em nada?

Guido Mantega –

Não. Já trabalhávamos em conjunto e quando o Meirelles e eu tínhamos alguma divergência de avaliação íamos discutir com o presidente da República.

ISTOÉ –

O sr. diz que a inflação tem esse peso sazonal, mas o mercado tem dito que é hora de aumentar os juros novamente.

Guido Mantega –

Uma coisa é o mercado, outra coisa é o Banco Central. Se pegarmos as últimas atas do BC, elas falam que a inflação está sob controle. O mercado olha só o IPCA ou o IGP-M cheio, o que é pior ainda, porque mede commodities, que estão num ciclo de alta lá fora. Nessa conta, a curva empinou para cima. Mas eu digo que ela vai voltar. O mercado é sempre ansioso, apressadinho para aumentar juros.

ISTOÉ –

Segundo Delfim Netto, o mercado é apressadinho, faz a pressão e o BC acaba acompanhando o mercado…

Guido Mantega –

Isso eu não sei. Sei que o mercado não gosta de indicadores estáveis, ganha com a volatilidade. Se a taxa fica parada, ele não ganha nada.

ISTOÉ –

O sr. acha que a questão cambial está bem resolvida? Ainda há outras medidas que poderão ser tomadas?

Guido Mantega –

Estamos numa guerra cambial. Infelizmente isso vai continuar porque uma boa parte do mundo não se recuperou. Os EUA conseguiram exportar mais para o Brasil do que nós para eles. É a primeira vez em não sei quantos anos que teremos déficit comercial. Agora, vamos lutar para que os países não adotem práticas belicistas. Tomaremos tantas medidas quanto forem necessárias. Hoje temos o conhecimento de medidas e o respeito do mercado. Eles sabem que nós não estamos brincando.

ISTOÉ –

Como o sr. está convivendo nesses dias com o fato de estar respondendo ao presidente Lula e à presidente Dilma?

Guido Mantega –

Tenho sentido que tenho dois chefes. Só está fácil porque eu estava acostumado a lidar com os dois. Tenho mais trabalho. Mas há a continuidade dos dois governos, com nuances e adaptações.

ISTOÉ –

Se o sr. completar os oito anos, será o ministro da Fazenda mais longevo, fora o do primeiro mandato de Vargas. Como o sr. encara esse fato?

Guido Mantega –

Se eu ficar serei o mais longevo, porque o da ditadura não conta.