02/02/2005 - 10:00
No começo de janeiro, o empresário Luís Felipe Tavares, 55 anos, de São Paulo, submeteu-se a uma litotripsia. O procedimento é usado para quebrar pedras nos rins. Não tem cortes, demora cerca de uma hora e o paciente volta para casa no mesmo dia. No entanto, depois da intervenção, o empresário precisou ser internado, trocou de hospital e só teve alta 11 dias depois. “Foi erro do médico e do hospital. A equipe que me operou não levou em consideração que eu tomo uma medicação que torna a intervenção contra-indicada”, diz Luís Felipe. Ele lembra ainda que sofreu muito durante o pós-operatório por causa das dores e da falta de informação. Agora, o empresário pretende pedir uma indenização pelos danos sofridos. Ex-campeão brasileiro de tênis, ele também disputou a famosa Taça Davis na década de 70. Atualmente, dirige a empresa Octagon Koch Tavares, que organiza eventos esportivos e culturais. Abaixo, a história contada pelo próprio empresário:
"No ano passado, alguns dias antes de viajar a negócios para o Exterior, senti um grande desconforto na hora de urinar. Achei melhor consultar um médico. Marquei uma consulta na clínica do urologista Nelson Forjaz, que me atendera anos antes. Durante o exame, feito pelo médico Marcelo Pitelli, tive diagnóstico de infecção urinária. Uma ultra-sonografia também mostrou uma pedra no rim esquerdo. Eu sabia desse cálculo, mas até então ele não causava problemas. Pitelli, porém, recomendou a extração imediata da pedra. Afirmou que ela tinha mais de seis milímetros e poderia provocar complicações. Hoje sei que essa indicação é controversa entre os médicos. Deixei o procedimento agendado e, no dia seguinte à minha volta ao Brasil, fui submetido à litotripsia. Fiquei tranquilo, afinal já tinha passado duas vezes na vida por essa intervenção, sem complicações. Segundo a minha experiência, depois eu poderia até ir trabalhar.
No dia 4 de janeiro, cheguei cedo ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São
Paulo. Preenchi o formulário de internação e fui para a sala de litotripsia. O procedimento foi realizado pelo urologista Reinaldo Uemoto. Embora não tivesse sido avisado de que seria necessário, tomei anestesia. Quando acordei, duas
horas e meia depois, estava sozinho. Não vi o médico nem o anestesista. Troquei
de roupa e fui embora. No caminho de casa, senti dores muito fortes. Pensei que fosse a pedra se movendo e que ela sairia assim que eu urinasse. O mal-estar continuou e precisei me deitar. Como a dor aumentava, liguei para Uemoto. Duas horas depois, ele ligou de volta e pediu que eu fosse para o pronto-socorro do hospital. Quando cheguei ao atendimento de emergência, tinha vomitado muito e sentia falta de ar. Fiquei deitado em uma maca e recebi remédios na veia para aliviar a dor, a essa altura indescritível. No meio da crise, pedi à minha secretária para localizar o urologista Forjaz. Ele atendeu o celular, mas disse que estava na Paraíba e nem sequer me perguntou como eu estava. Por volta das 20 horas, fui levado para um quarto. A dor continuava forte. Mais tarde, fui submetido a uma ultra-sonografia. Era evidente que havia algo errado. Quan™do perguntei de novo aos profissionais que me atendiam qual era o problema, disseram-me que a dor forte podia ser causada por um pequeno sangramento.
No dia 5, às 6 da manhã, Uemoto veio me ver. Mediu a pressão e comentou comigo que o problema havia sido causado por um dos remédios que eu tomo, o Ecotrin,
um medicamento usado para prevenção cardiovascular (o medicamento é um antiagregante plaquetário e contém ácido acetilsalicílico, dificultando a coagulação. Por isso, é capaz de aumentar o sangramento). Disse que o remédio teria causado um “pequeno sangramento”. Mais tarde fiquei sabendo que tive uma hemorragia interna que consumiu dois terços do meu sangue.
Depois desse encontro breve, Uemoto me avisou que iria viajar e eu passaria a ser acompanhado pelo médico Marcelo Pitelli. Mais tarde, depois de conversar um pouco sobre generalidades, Pitelli disse que eu tinha um hematoma. Perguntei se isso tinha relação com o medicamento. Ele respondeu que eu tinha assinado um papel no qual se dizia que esse tipo de procedimento pode dar algum problema. Lembrei a ele que sabia o que tinha assinado, mas esperava que o hospital se lembrasse do que eu falei sobre os remédios que uso. À noite, Pitelli disse que eu havia perdido muito sangue e precisaria de uma transfusão. No total, tomei três bolsas de sangue.
Passado o trauma inicial da dor, perguntei o que estava acontecendo. Pitelli respondeu que estava corrigindo o sangramento e que até sexta-feira 7 eu iria para casa. Daí comecei a me sentir desamparado. Um primo meu, que também é médico, me disse que certamente a alta demoraria mais. Então percebi que estavam mentindo para mim. Fui ao hospital para ficar duas horas e já estava lá há quatro dias. Tive hemorragia, crise hipertensiva e sentia-me muito fraco. Tomei bolsas de sangue e diurético, sem saber por quê. No sábado, o médico disse que a alta seria no domingo. Já não acreditava mais neles. Fizeram outra tomografia, mas não fui informado do resultado. Mais tarde, Pitelli veio ao meu quarto dizer que o hematoma havia regredido, mas ele não sabia informar quanto. Disse ainda que eu ficaria mais um dia no hospital. A essa altura, eu sairia na segunda-feira. Depois que ele saiu, pedi o resultado do exame à enfermeira, pois é meu direito (segundo o Código de Ética Médica, é direito do paciente saber o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e objetivos do tratamento).
No domingo, minha pressão continuava alta. Foi então que o meu médico, Dino Altmann, chegou de viagem e foi me visitar. Mostrei a ele os resultados das tomografias. Ele sugeriu minha transferência para o Hospital Israelita Albert Einstein, onde trabalha. Mas, para isso, eu precisava ter alta. Foi outra novela. Expliquei a Pitelli que gostaria de ser acompanhado pelo meu médico a partir daquele momento e que tinha perdido a confiança na equipe que me tratara até então. Ele ficou contrariado e disse que só me liberaria se eu assinasse a alta. No prontuário, escreveu que a visita de Dino elevara minha pressão. Mais tarde, veio ao quarto. Disse que eu estava em crise hipertensiva e deveria esperar até o dia seguinte. Completou que depois eu poderia ir para onde quisesse. Também perguntou se ele havia deixado de me atender algum dia. E lembrou que estava com filho pequeno em casa. A essa altura, minha pressão estava altíssima. Foi então que Pitelli saiu da sala e dois minutos depois voltou junto com o Uemoto, que eu não vira mais até então. Cansado, pedi aos dois que se retirassem. Uma hora depois fechei a conta e fui para o Einstein. Lá, fui atendido por um cardiologista e fiquei sabendo que ficaria ali mais cinco dias até me recuperar, com medicamentos e fisioterapia pulmonar, por causa de problemas respiratórios causados pela hemorragia interna. Durante uma nova ultra-sonografia, perguntei ao médico como estava a minha situação. Ele me disse que o hematoma regredira. E que eu tinha agora duas pedras no rim. A litotripsia tinha dividido o cálculo, que continuava lá.”