02/02/2005 - 10:00
O cenário é de vazio total, um nada branco e absoluto onde reina o silêncio. E o frio chega a incomodar o gaúcho Jefferson Cardia Simões, um dos raros brasileiros devotados ao estudo do gelo. Para o cientista que tem no currículo 13 viagens à Antártica e três ao Ártico, passar a virada de 2004 no desértico platô antártico foi como conquistar o monte Everest. Representa a consagração de 20 anos dedicados à pesquisa. Ele foi o primeiro brasileiro a atravessar o manto de gelo e a atingir o Pólo Sul Geográfico, 2.400 quilômetros ao sul da região já visitada por navegadores brasileiros.
Aos 46 anos, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Comitê Internacional de Pesquisas Antárticas, ele fez parte do time de especialistas chilenos que estudam o papel da Antártica nas mudanças climáticas. A equipe percorreu 2.250 quilômetros e fez levantamentos para avaliar a espessura, a velocidade e a estrutura interna do gelo. Outro brasileiro da equipe, o professor Francisco Aquino, ou Chico Geleira, ficou baseado na estação chilena de Patriot Hills.
Ainda é cedo para apontar os resultados científicos da aventura polar – orçada em US$ 2 milhões, 95% bancados pelo Chile e 5% pelo Brasil. As análises só estarão prontas em dois ou três anos. O Brasil teve papel essencial, pois a UFRGS é a única instituição da América Latina equipada com perfuradores de gelo. A missão do glaciólogo gaúcho foi perfurar poços na neve para recolher testemunhos da ação humana na atmosfera. “Coletei seis cilindros com 8,5 centímetros de diâmetro e 70 centímetros de comprimento, onde fica guardada a memória do clima na Terra”, explica.
Devido ao acúmulo constante de
neve, o gelo registra o passado em sua composição química, permitindo o estudo da atmosfera e os efeitos da poluição por centenas de milhares de anos. Quanto mais funda a perfuração, mais antigos os registros. O máximo de profundidade alcançada pela equipe foi de 46 metros, correspondentes a 350 anos de história. Os pesquisadores retiraram mais de 120 amostras, que servirão para análises comparativas entre os dias atuais e o passado.
Para compreender melhor a Antártica é importante saber que as geleiras e os mantos de gelo são originados da neve acumulada em camadas horizontais. Quando se precipita, a neve carrega uma série de impurezas existentes na atmosfera e se transforma em gelo. A composição química é preservada na sequência de depósitos, ano a ano. Na década de 1990, cientistas franceses detectaram o impacto do Império Romano na atmosfera. “Encontraram gelo da Groenlândia poluído pelo chumbo usado na cunhagem de moedas de antes de Cristo”, lembra Simões. O gelo mais antigo, recolhido em 2003, corresponde a 720 mil anos.
A cobertura de gelo antártico é um dos principais controladores do sistema climático e do nível dos mares. Com o aumento da temperatura do planeta, os efeitos começam no limite das regiões polares com as temperadas, onde o mar é congelado. Com o degelo das calotas polares, o mar, que refletia muita energia solar quando era branco de gelo, passará a refletir menos, e essas regiões se aquecerão mais. Segundo Simões, as geleiras também devem se fragmentar em icebergs e derreter. Os cientistas ainda tentam calcular o impacto desse derretimento sobre o nível do mar, certamente maior nas ilhas do Ártico, no sul da Groenlândia e nas montanhas das regiões temperadas, como Himalaia, Andes e Alpes.
“A previsão dos glaciologistas e do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas é de que haverá um aumento mínimo de 20 centímetros e máximo de um metro no nível do mar até 2100”, diz Simões. Ainda não se sabe como a Antártica responderá ao aumento global de 0,6 grau na temperatura dos últimos 100 anos. Em dez anos, 15 mil quilômetros quadrados de gelo se perderam – três vezes o Distrito Federal – na forma de icebergs que derreteram. Na semana passada, cientistas britânicos divulgaram o mais extenso censo sobre o futuro do clima. Com a ajuda de 90 mil voluntários, que emprestaram o tempo ocioso de seus computadores, eles calcularam que a temperatura média da Terra poderia subir até 11 graus em 100 anos. Isso se não houver um controle das emissões dos gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento global. A previsão mais aceita estima que a elevação será entre 2ºC e 6ºC.
O Pólo Sul Geográfico é um dos lugares mais secos do planeta. A espessura do gelo, que se move nove metros por ano em direção à costa, é de 2.800 metros
“É um platô desértico que hoje abriga uma enorme estação americana”, diz
Simões. A amostragem de gelo mais importante é feita na estação russa Vostok, onde se perfurou o equivalente a 420 mil anos. Lá, os cientistas descobriram a
3.750 metros de profundidade um lago que pode conter microrganismos
adaptados a condições extremas, diferentes de tudo o que se conhece na Terra.
O Brasil participa do projeto em cooperação com o Centro de Pesquisa Científica
da França. Além da travessia chileno-brasileira, outras 12 foram organizadas
pelas Expedições Científicas Transantárticas Internacionais (Itase). A primeira foi
em 1995 e a última, em 2006. Um programa internacional de pesquisas, batizado
de Ano Polar, começará em 2007.
Os primeiros exploradores a alcançar o Pólo Sul Geográfico foram o norueguês Roald Amundsen, em dezembro de 1911, e o inglês Robert F. Scott, em janeiro
de 1912. O inglês morreu com seus quatro companheiros na viagem de volta.
Daí o nome da estação americana, Amundsen-Scott. Ao chegar ao nada branco,
Scott comentou: “Que lugar horrível!” A impressão de Jefferson Simões não foi diferente: “É desolador, um ambiente agressivo, plano, com dunas de 30
centímetros e ventos constantes”.